Est.aMo Prat. 8 Liv.f

MEMORIAS

PARA A HISTORIA

ECCLESIASTICA

D O

ARCEBISPADO

DE BRAGA,

PRIMAZ DAS HESPANHAS.

i

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MEMORIAS

PARA A HISTORIA

ECCLESIASTICA

DO ARCEBISPADO

DE BRAGA,

T^BJMAZ T> AS HEST AJ^HJS,

DEDICADAS A ELREiT

D. JOAÕ O V.

NOSSO SENHOR.

APPROVADAS PELA ACADEMIA REAL,

ES C<S^JT JS fELO 'PAT)%_E

D- JERONYMO CONTADOR

DEARGOTE,

Clérigo Regular, Académico da mcfma Academia.

TITULO L

DAGEOGRAFJA DO ARCEBISPADO PRIMAZ de Br<i<^a , e da Geografia antiga da Pro-vincia Bracarenfg

TOMO SEGUiNDO. '

LISBOA OCCIDENTAL,

Na Officma de JOSEPH ANTONIO DA SYLVA , Imprf (Tor da Academia Real.

M. DCC XXXIV. ~ ~

Com todas as liun^as fiecejjarias.

INDEX

DOS LIVROS, E capítulos, que contem eftc fegundo tomo.

LIVRO III.

CAP. I. I A Os yefitglos , e antiguidades ^omands , que exlflem na Comarca de Guimaraens^

P^g- 457. , , ^ -

CAP. II. De alguns 'Veftlgtos de obras Romanas , quz

exiftetn no termo de Alfarella , pag. 468. CAP. III. De outros yejliglos de antiguidades %om

nas y que exiftem ?ia Comarca da Torre de Mon"

corVo , pag. 48^. CAP. IV". De alguns vejligios de ^o^>oacoens ^ma*

}ias y que exijlem na Comarca de Villa ^al ,

pag. 490.

CAP. V. Dos yeBigíos , e ruínas de fabricas ^mã" nas , que exiftem na Camar ca de Villa ^al , pag. 495.

CAP. VI. Dos Veftigios , e ruínas Romanas , que ft achaÕ na Villa de Monte Alegre , e feu termo , pag. 500.

CAP. VII. De outros yefligios de rumas , e antiguU ãades ^manas , que exiílem , e fe fahem em dl* yerfas partes do Arcehif^ado de 'Braga , pag. 508.

CAP. VIII. Do ií[o dos ^adrcens , e hfcripcoens (?^o-

* iii i?ianas.

man.is , d refpelto da Geografia mtgd , e da ht' tcUigencld das taes Lijcripcoeus , e fuas circunf^ tancias y pag. 51^.

CAP. IX. Das Vias militares , que haVia ?ia Dlocejl de 'B/agd j no tempo dos ^mafíos , pag. 521.

CAP. X. Da mtayel Via t?illltar > que fahla de 'Bra- ga pára J/lorga , e cortava pelo monte Gerês ^

CAP. XI. Cojithma a Di/crlpcao da Via militar do Ge-

^'^'> P^?.' 554-

CAP. XII, Da Via militar , que de (Braga fahla pa- ra ^ftorga , pafjando por Jquas Flavlas , ifto be Chames , 570.

CAP. XIII. Das dlffjculdades , que ha para regular a Via militar acima , que ultimamente de algumx Jorte fe regula , pag. 577.

Cap. XIV. ^r ofegue a Deferi (jçaÕ da Via militar do Capitulo acima , pag, 589.

Cap. XV. Do tempo em que fcraÕ alertas eflas Vias ínlUtarcs pelos ^manos , e em que tonpos foraÕ re- formadas , pag. 596.

Cap. XVL Dãí ye/nrmaçoens y que teVe a Via militar para Jstorga , que paffaya por Tonte de Lima ^ pag. 6ío.

Cap. XVI í. De outras reedlpcaçoens , que hcWVe nat

Vias militares y que JahlaÕ de Braga j pag. 621, Cap. XVIII. De alguns fragjmntos de Clppos Romanos y

que exlftem em Braga , e outras terras da Dloce-

fi Bracarenfe y pag. 6:52. Cap. XIX. De outras antiguidades ^manas , achadas

na Dloceje de Braga, pag. 658,

LI-

LIVRO IV.

Cap. I. ^ Ceogrâfid da Troyincia EcdeJiaflicA

de 'Braga , no te??ipo dos Sueyos , pag. 645.

Cap. II. ^os limites da Dioceji de Braga , 710 tempo

dos %eys Sueycs j pag. 65^. Cap. IIÍ. 'Das Diocejjs Suffraganeas da MetropoU , e

TroVinda Bracarenje , no ternpo dos Sueyos , pag,

660.

Cap. IV. Das Cidades , qne continha a Monarchia dos. Sueyjs , e Troyincia Bracarenfe , pag. 667.

DISSERTAÇÃO I.

Decide-fe em que fitio eflaya a Cidade de Lugo , que no tempo dos Sueyos foy ereBa em Metropolitana , pag. 671.

DISSERTAÇÃO IL

Sohre o fltio da Cidade de Britonia , pag. 682. Cap. V. Das Tarochias , e Toyoaçoens , que exiftiaÕ

71a Diocefi de Braga j fio tempo dos Sueyos ^ pag,

689.

Cap. VI. Defcreyem-fe as Tarcchias , que pertenáaÕ às Suffraganeas de Braga , pag. 6p8.

Cap. VI í. Dos terjnos da ^royincia , e Dlcceji Braça-» Yenfi y n-) tempo dos ^js Godos, pag. 701,

OIS

DISSERTAÇÃO IIL

Sohre as Vias milhares %omanas , e o Itinerário , de Jntonhw»

DISCURSO I.

Dos caminhos , e fuás dhl/oens , das Vias militares

manas , e da fua matéria , architeBura , e dijlan* cias, pag. 707.

D I s c u Pv s O n.

JJJumpto , Juthor , methodo , f í/o que pertence aos tt' tulos do Itinerário do Emperador Antonino , pag,

D I S C U R S O III*

Oo principio , continuação , ^ fim ] que o Itinerário as Vias^ 7nlU tares , e das medidas , porque defere- ye as dljianclas, SoltaÕfe algumas duVidas a ref" peito das Vias militares , pag. 7^5.

DISCURSO IV.

í)as pejfoas , que trahalhavao nas Vias militares , e do para que ferViaÕ. Trata-fe das Vias militares por •agua j e do Itinerário marítimo de Antonino , pag» 745-

DISSERTAÇÃO IV.

Sohre o primeiro^ e fegnndo Documento , que yay no Ap^ pendlce defle fegundo Volume , pag. 755.

DIS-

/

D I S C U R S o I.

Moftrd Verdadeiro o primeiro Documento ,

do , e por quem foy compofto , e que nao he orlgi^ nd , e eftd mutilado , pag. 75^.

DISCURSO II.

MoHra-fe , que o fegundo Documento mm he ohra de Ithacio , mas obra pojlerior , compofta per algum idiota , que enVoheo mlla alguma parte do livro de Itkicio , pag. 759.

DISSERTAÇÃO V.

Trata-fe da calldade do Documento terceiro , e Jcías do Concilio Ovetenfe , que yaÕ copiadas no Appendlce^

P^g- 775-

DISCURSO ÚNICO.

Suppofios alguns prhtclplos Irrefragaveis , mojira-fe, que as Acias acima jiaÕ fúó fingidas , 7nas que andao alteradas , regulaofe , e dejefidem fe , pag. 774,

DISSERTAÇÃO VL

Trata- fe da Verdade do Documento quarto , que Vay n& Appendlce , e outras clrcunfianclas , pag, 787.

DISCURSO ÚNICO.

"Moftra-fe , cine o Documento qmrto do Jppendtce , he authentko , ainda que ylciado , e regula- fe , pag. 798.

AD-

ADVERTÊNCIAS

PRELIMINARES

CONTINUAÇÃO DESTAS

MEMORIAS.

ANres de come(^ar o terceiro livro deftas Me- morias , me pareceo dar razaó aos Leitores, a refpeito de alguns reparos , que poderáó fazer no que pertence a efta Obra , por ignorarem o motivo. O primeiro he verem , que eu na In- troduc^aó deftas Memorias , prometto hum to- mo de Geografia antiga , e agora a reparto em dous. Naó foy ifto deícuido , foy neceííidade. Depois de eftar compofta efta Geografia , fe ordenou , que para mayor uniformidade , toda a impreftaó da Hiftoria Eccleíiaftica , e fecular de Portugal , foíTc de huma letra , e papel 5 e como a experiência moftraíTe , que na qualidade da letra , e marca de papel , que fe elegeo, fe eOa Geografia íe impri* mifte em hum íó tomo , fahiria disforme o volu- me na groffura , foy precifo dividir em dous to- mos, o que devia fer hum fá.

O íegundo reparo he , que fe lerá nefta Obra, que a compofí(^aó delia fe fez em diverfos annos , e aííím foy , porque eftando eftes dous tomos aca- bados no anno de mil e fete centos e vinte e qua- tro , e fakando-lhe algumas miudezas , e cita-

^oens.

cocns , adoeceo o feu Aurbor , de que refultou fi- carem íem o benefício da ImpreíTaó , até cjiie no anno de Vinte e oito , achando fe com alguma me- lhora, dentro de dous mezes as aperíeic^ooií. E co- mo principiadas a imprimir no anno de mil e trin- ta , por naó fey que fatalidade alli íe detiveííem quatro annos , e nefte tempo vitíTcm à noticia do Author algumas antiguidades Romanas , que no en- tre tanto fe defcobriraó , as foy accrefcentando à Obra , que eílava eícrita , e por iflo íe acharão algumas Infcrip^oens Romanas, lançadas em lugar menos conveniente do que deviaó ir. E também depois de eftar impreíTo o primeiro tomo , me veyo à maó hum Documento, que exifle no livro Fídei , no Archivo da de Braga , be he huma fenten(^a fobre a contenda , que no tempo delRey D.Affonfo o Sexto de Leaó , houve entre Hoderonio, Bifpo de Orenfe, e D.Pedro, Bifpo de Braga, de que conRa , que a fítuaçaó dos Povos Equiíilicos, de que trata Plinio , e de que falíamos no capitu- lo treze do primeiro livro deflas Memorias , no numero 256. era no território de Baroncelle , bem Romeado nas Eícrituras antigas dos Reys de Leaõ.

ME'

MEMORIAS

PARA A HISTORIA ECCLESIASTICA de Braga, Primaz das Hefpanhas.

LIVRO III.

De algumas ruitiaf i 'vejiigíos , e Antiguidades Romanas,

CAPITULO L

Dos nxjiigios , c Antiguidades Romanas , qne exijiem m Comarca de Guimaraens.

755 ' LEGOAemeya da Vilh ^„„.^^, „, ^

de Guimaraens , e oucro can- tam. to de Braga , no alco de hum monce, junto ao rio Ave, fora da eftrada defta Cidade I para aquella Villa, meya le- goâ ao Naícente , eftaó hu- mas ruínas , a que os moradores de tempo immemo- rial chamaõ Citania. Percendem muitos dos noíTos Tom.Il. A Hifto-

458 Memorias do Arcebijpado de Srag4,

Hiftoriadores , que houve alli Povoação Romana , e que efta foíle a Cidade de Cinania , como fica dito no capitulo decimo do Livro antecedente ; o que po- rém deixamos impugnado quanto à exiftencia da Ci- dade de Cinania naquelle fitio. Quanto ao ter havi- do alli Povoação Romana , diremos o noíTo parecer depois que defcrevermos as fobreditas ruínas , e íuas circunílancias.

Defcre've-fe o monte de 754 O íobredito montc he alto , e baílântemen- te deípenhado pela parte do Naícente , Meyo dia , e strra nas Memorias <}e Pocnte , c pela parte do Norte fe communica com £fure Do»ro e A<ímho, ç^utros, GUQ lhe ficaõ infcriores. Pela parte do Naf- 3. f 4. cence , para onde lhe hca o no Ave , le íobia por nu- ma calçada muito larga , mas fem algumas pedras, e com o mato incapaz de fe íobir por ella , a qual vay fobindo pelo monte até o alto delle , e vay vi- rando para a parte do Poente : na roda do monte pela parte do Norte , fe vem veftigios de dous baluartes redondos. Para diante de hum dos baluartes fe vem ruinas de outra calçada , que fobia da parte do Poen- te , e parece poderia fer eftrada encuberta , porque ainda algurnas pedras moftraõ formatura de arco.

Dercr-^pçuô da^m»4i 755 ^ ^"^'^^ occupava a PovoaçaÓ , e

amigas. alH fe vem veftigios de caías, pela mayor parte redon-

das, algumas com tudo nota a relação do liluílriílí- Bifpo de Uraftop. acima mo Bifpo de Uranopolis , que eraó quadradas , todas frdíio , na Rda^aõ á<s feif^s ^ pedras pequenas , mas baftantemente com- 136. poltas, as ruas erao eltreitas , delorte, que nao ca-

biaó mais que dous homens a par, fomente huma , que corre quaíi de Nafcence a Poente, e he baftan-

temente

Livro IIL Cap, L

temente comprida , porque atraveíía toda a Ppvp^í- ^aò , he mais larga , de forte , que cabem por elU qua- tro peíToas a par; para a parte do Sul fe divifa huma cafa , que he a mayor , que fe acha ainda com pare- de de dous , ou três palmos ; efta dizem , que era Templo ; e affirmou hum homem , que haveria trin- ta annos fe lhe viaó arcos fubterraneos por fer funda; e que hum Chantre de Braga desfez para levar para huma fua quinta as melhores pedras , entre as quaes foy huma mármore , e notável , de que depois fallare- mos.

7^6 Eflaõ cercadas eílas ruínas de huma mura- Profegue-fí a defçnp- lha de dez palmos de largo , e nella hum portal da ^*^^* mefma largura , e defta muralha até outra , que lhe fica mais abaixo , tem de diftancia vinte e íece varas ^ e defta em diftancia de cem varas fe outra mura- lha, todas de dez palmos de largo, e todos eíles troí^QS de muralha , que exiftem , ficaó ao Poente , fegundo fe relata nas Noticias, que vieraó comportas pelo Corregedor de Guimaraens. Kas que vieraó de Bra- ga íe diz , que pela parte do Sul , e Poente, por fer o monte deípenhado, tinha hum muro, porém qne da parte do Nafcente , e Norte , por onde fe com- munica com outros montes mais baixos , tinha na parte mais fraca cinco , e no mais quatro com trin- cheiras entre hum, e outro muro , e abertas com tan- ta perfei(^a5 , que em parte romperão os rochedos , que fe offereciaó com incrível trabalho.

757 Entre eftas ruínas fe acharão diverfas pe- c ras. Achoufe aótualmence huma no íítio onde , ou

A ii foy

<

4^0 Memorias do Jrcebifpado de ^raga.

foy Ermida , ou Templo , a qual pedra he huma lage com os feguintes caraderes.

X

VGVO

Achoufe outrofím huma pedra, a que hoje chamAÕ a , Pedra Fermoía , ha annos, no tempo do Chantre de Braga Ignacio de Carvalho, Abbade de Santo Efte- vaó de Briteiros , por ordem do qual foy tirada dalh', e conduzida para hum ficio chamado o 'Po^o àe Olla , onde efteve até o anno de mil fetecentos e dezoito, em que foy ultimamente trazida por onze juntas de bois para o adro da Igreja de Santo Eftevaõ de Bri- teiros. Tem ePca pedra doze palmos de largura , on- ze de altura , e dous de groíío ; eílá de huma face pri- morofamente lavrada com diverfos debuxos , e pelas bordas cortada em íeis lados , dos quaes o da parte de cima toma toda a Tua largura , fazendo no meyo hum pequeno femicirculo. Os de mais hdos todos correm em igual proporção. Outr4^. pediras, ^uealli 75^ Outra pedra quadrada fe achou alli com o fsAibATM. lavor de hum laco muy ulado entre os Romanos.

Outra pedra fe relata nas Noticias rcmettidas de Brai- ga , íe achara também , que he quadrada, e nella eí- taó gravadas f uas figuras , huma de hum Satyro pe- ausnino , nu, e com huma tocha na ma5, e detraz do tal Satyro outro menino também níi com os braços tílcnciidos.

Elias

Livro III. Cap. L 4^1

7^9 Eftas fa5 as verdadeiras noticias das riiinafj Jni\o fohn as ditas qne aílualmente exiftem de Cicaniji; e entrando a fazer juizo delias , tenho para mim , que as ruas , e cafas , cujos veftigios ainda exiílem, naó íaõ obra Ro- mana, pela eftreiteza , e figura delias , nem encontro com a nobreza dos edificios , que coRumavaó os Ro- manos, nem com adobes , pedras lavradas , &:c. e al^ íim me perfuado fer aquillo fabrica , ou do tempo em que as naçoens barbaras invadirão as Heípanhas-, e do Reyno de Suevos , e Godos , porem julgo , que anrecedenremente houve alli Povoacaó Romana , o que parece le convence da obra da cacada, que de- nota nobreza, e magnificência, e da Pedra Fermola, que dííT^mos, e fobre tudo da pedra em que eílÁ gravado o Satyro , que naó tem duvida fer do rempa dos Romanos. A primeira pedra, quedefcrevemos, me parece de tempos mais modernos , pelos caraólc'- res que tem. O Doutor Barros nas íuas Antiguidades j^^rm nas Ann^^uida^ de P.ntre Douro e Minho , tratando de Guimaraens , ^^^'^f ^''^'^ J^^í'^^ ^ Vindo a milar nelía Povoação de Citania diz, qne 134. eílava alli hum muimenro muito velho , equediziaõ €Íl:ava nelle enterrado ElRey Wan"jba , o que bem fe fer huma tradiçaó perturbada com algiTm enga- no, pois he certo , que ElRcy Wamba teve miiy d>- verio jazigo, mas íem duvida havia no tempo de Barros algum monumento de peíTca grande , e muito antiga naquella Povoacaó-, ou ruinas. Nos Frafrtnen- Fra^mvnm doCov iih

S ^ ' .1. T r 1 L 1 9 LucenÇe j tioJipt>uh-

tos do Concilio Lucenle, celebrado no anno de qui- f^, DoçnnmtQj>. nhentos e feíTenta e tantos , íe faz men^aó de huma Parochia chamada Gitania, percenceace à Sé. de Brr>

Ade mor! as do Arccbijpado de ^raga,

gaj e percendem alguns íeja efta Povoac^aõ de Ci- tania , e que aíTim íe lia nos Códices , e que por ha- ver grande femelhan^a , e muy pouca difterenca en- tre a figura da letra C , e da letra G, no idioma Gó- tico em que foraó efcritos , os Amanuenfes em lugar deCitania, efcreveraó Gitania. Concluamos, pois, que no fobredito monte houve Povoac^aó Romana , e também efta exiftio no tempo dos Suevos , Goc^cs, e Mduíos, e que com a variedade dos fucceíTos foy mudando de fortuna , até que de todo ficou defpo- voada , e folitaria , reduzida a hum monte de pedras , como hoje fe vê.

Templo de Ceres , m 7^^ ondc hoje exifte huma Ermida,

Cttimaraens, ou Capella dedicada a Santiago , na pra(^a do peixe ,

em Guimaraens, dizem eftivera antigamente, no tem- po dos Romanos, hum Templo dedicado à Deofa Ceres , ou a Minerva , noticia em que nao acho a cer- teza que quizera ; mas naó ha duvida, que Gafpar Efta^o , Cónego daquella Collegiada, depõem , como teftemunha de vifta , de huma grande Torre , que alli havia , que parecia obra Romana. Pedra , e Infcripçaô 7<^i Em S. Miguel de Caldellas, Freguefia do jinmana, queexijisem termo de Guimaraens , onde arrebentaõ humas aguas, . ji/^^díií-Ctfiííd rf. ^^^.^.^^^^^ exifte huma pedra Romana de doze pal- mos de comprido , e dous e meyo de largo , com a íeguinte Inícrip^aó ;

Serrnacima allegado, DEDICAVIT. T. FLAVIUS. ARCHELAUS.

CLAV. DI ANUS. LEG AUG

Quer dizer: Tito Flayio Archelao Claudiano ^ Legado

do

Livro IIL Cap. L 4^3

do Bmperahr, dedicou eíU obra. Eíla pedra levou deíle fitio o Doutor Manoel Barbofa para a lua quinta de Aldao , onde fe con ferva a(Stualmente quebrada. Que obra efta foíTe fe naò fabe.

j6z No monte de Chriílello , a pouco mais de ^ZfJZiuu^ meya legoa do rio Vifella , e duas de Guimaraens , no Confelho ds Filgueiras , Freguefia de S. Veriííimo, fe vem aliceííes de pedra lavrada , e fe tem tirado dalli muita quantidade , e entre ellas huma Eftatua de Sena eviRcU^aô efpe^

r r r r ^ \A } A cml fOr ordira áííA«í-

pedra tolca , que íe conlerva em caía de Manoel de ^^^^^^ ^^^^^ Macedo Magalhaens , da quinta de PaíTos , Freguefia. de Penacova, termo de Guimaraens, que fcu av» DominçTos Ramos tirou ha annos do monte acima dito, a qual naó tem cabe(^a , nem pés , e o corpo he de quatro palmos de alto , dous de largo , e hum de grollo. Achaó-fe no fobredito monte penedos tofcos com letras Romanas ; hum grande tem huma ínlc^ip" ^aò para a parte doMeyo dia, com eftas letras.

lUNOVEI RURNARUM QUINTILIO ET PRISCO CoS

DeOa forte vem copiadas as letras na rela(^aó remet- tida à Academia Real. Eu entendo , que ou eftaô mal gravadas , ou foraó mal copiadas ; que huma , e outra coufa obfervo muitas vezes nas fobredicas Inf-^ cripçoens , que íe remettem. Entendo > que fe ha de ler: Jumitei '^ghice urhls Sacmm. Quer dizer: ESta. ohra le dedicou a Juno , Rainha da Cidade de ^ma, fenda Confidcs Çhàntillo-y e ^rijco. Em Grutero fe achaomui» £o& cippos com letrjeiros íemelhances^ ededica^oens

a Juno

4^4 ^"^^'^'^^^^''^^^ Ãrcebijpado de 'Br^ga, a Juno Pvainha da Cidade de Roma. O que naõ tem duvida he , que a cal Inícripcaó foy gravada no anno cento e cincoenta e nove da Era vulgar do Naíci-' mento de Chrifto , fendo Emperador Antonino Pio , porque no tal anno foraó Conluies Cláudio Quintillo, ~~ e Marco Eílacio Prifco , como ccnfta dos Faílos dos Confules. Em outro penedo mais alto eftaó eltas le- tras. VN NG Em outro penedo mais adiante ci- tas. VN. As mefmas eftaò em outro , e outro pene- do , que fícac mais adiante, e logo em outro eftaó as íeguintes :

ovo ocKi H Mii

Em outro penedo com as letras para cima a feguince Inícripcaó neftas duas regras :

AkVNI AA I A

Eílas Infcripc^oens humas eftaó taõ refumidas , outras taó mal gravadas , e com taes caradleres, que eu con- feíTo as naõ percebo.

7^ r : ..'j. 7^? fica o fobredito monte em hunn alto, com numa vilta muy dilatada, e na lua circunrerencia tem capacidade para accommodar muitos mil homens. A gente do Paiz diz , que antigamente houve alli huma Cidade chamada Pegas, e dizem, que para* memoria difto fe conferva ainda alli huma preza de agua, a que chamao a preza de Pegas.

jtii\o do Mor, 7*^4 ^ certamente naó tem duvida , que alli hou-.

ve Povoac^aó Romana , o que fe infere da pedraria lavrada , e mais circunftancias , que ficaó relatadas.

' Alguns

Livro HL Cap.L

Alguns dizem o Iiabicaraó os Mouros; eu o naó du- vido , com tanto , que aíTencemos o povoarão tam- bém os Romanos , porque deftes temos os finaes , que ficaó ditos. Ha alli as ruinas de hum Caftello , a que chamaó dos Mouros , e naó duvido foíTe habita- rão íua ; mas he de advertir , que os Povos daquellas Províncias , tudo o que he muito antigo , reputaó por veftigios de Mouros , fendo aííím , que eftes domina- rão muy pouco tempo aquelle Paiz, e quaíi a mayor parte delle com graves fobreíaltos , como a íeu tem- - ^

po veremos neftas Memorias.

765 No monte de S. Jorge , diftante huma legoa '""«^^ ^^S' do de Chriftello , o qual monte de S. Jorge fica de-

fronte do Morteiro de Cramas , de Cónegos Regran- tes de Santo Agoftinho , donde fe tirarão muitas ipc- senam Relação adm dras lavradas, fe vem veíligios de Povoação; os do ^^f''^'^- Paiz dizem , que de Mouros : eu entendo que de Ro- manos , em razaõ do polido das pedras , em que os Mouros fe can(^ava6 pouco em Paiz, que nunca pof- fuiraó pacificos , mas com as armas na maó.

766 Nos limites das Freguefias de S. Perofins , e Rums amigas no mort' de S. Joaó de Eiris, meya legoa dos rios Ave, e Vi- de s, Romão, zella , para a parte do Meyo dia,efi:á hum monte baf- tantemente levantado , a que aquelles Povos chamao

de S. Romaó, por caufa de huma Capella deíle glo- Bifp-) de Urampolis riofo Santo, que alli efteve, de que fe vem ainda ruinas. Corre efte monte de Norte a Sul , e fe levan- ^ ta em forma , que fe defcobre delle muito Paiz. No mais alto faz huma planicie , que declina para a par- te do Norte , aonde efteve iituaJa luima antiquiílima Tom.IÍ. B Cidaic,

Contímh-fe a dífcríp ^ao das taes r/íims.

CoHtinitH'fe,

^66 Memorias do Arcehifpado de ISraga,

Cidade , a que chamaó anualmente Cidade velha. Era cercada de hum bom muro , que terá meyo quar- to de legoa em roda , e tinha de largo fete palmos , e exifte ainda hoje em altura de hum covado j den- tro le divifaó as ruínas das caías , que eraó pequenas, e íe diviíac outrofím as ruas, que eraó eílreitas, e ladrilhadas. No meyo da mefma Povoac^aó fe levan- tava em mais altura hum cabe<^o do monte , que eílá cercado de outro fegundo muro da mefma groíTura , que o primeiro , e nefte cabeço fe divifaõ algumas caías mayores , e alguns Caftellos de efquadria em fórma orbiculare

767 Por fóra do limite da Cidade íe vem algu- mas trincheiras , aílim para a parte do Norte , como do Sul , em diflancia de dous tiros de pedra. Em hum Valle âlli perto íe defcobrio huma grande cova, que eftava tapada com huma grande pedra redonda , a qual tem no alto hum orifício quadrado , e na parte inferior tinha outro , guarnecido com hum cordaó. A cova he fechada de abobeda, e feita de boa efqua- dria , e continua para dentro fem fe lhe deícobrir fim. Na mefma parte fe hum grande lagedo , e no meyo delle hum grande buraco redondo, por on- de cabe huma bola de jogo , e defce com tanta pro- fundidade , que nem pela eftimativa fe lhe percebe o fundo.

768 Para a parte do Nafcente das ruínas da Po- voação íobredita, a tres para quatro tiros de eípin- garda de diílancia , eílá hum penedo redondo, e nelle para a parte do Nafcente gravada eíla Inícripçaó :

COS.

Livro IIL Cap, L

4Í7

COS. P. S.

Para a parte do Poente tem outra Infcripí^ao, que

principia : FIDV HIC. As mais letras naó

le tiraraó pela brevidade com cjue fe examinou.

769 Tudo o que fica relatado, he pontualmente o que fe mandou dizer nas noticias , que remetteo o Illuftriffimo Biípo de Uranopolis , e delias manifefta- mente íe infere houve por alli Povoa(^a6 Romana , porque ainda que as ruinas exiftentes no monte pela eftreiteza das ruas , e pobreza da fabrica , e outras circunftancias , íó moftrem ter alli havido Povoac^aÕ no tempo dos Mouros , ou da entrada dos Bárbaros em Hefpanha , com tudo o primor , e cuílo com que eítá edificada a concavidade , e o mais, bem decla- raó naó fer aquillo obra de Godos , nem Mouros. Além do que fica dito , me confia por carta do Padre Antonio Machado Villasboas , e Rela^aó , que a efle fez o Abbade de Santiago de Germieiro , natural das vilmhan^as defle monte de S, Romaó , que no meyo das ruinas acima deícritas , eflava huma baze , e lo- bre ella huma Eflatua de pedra de huma mulher,com huma roca na cinta , que ha pouco tempo fe quebrou, por fe entender era figura de algum ídolo , como na realidade devia de fer.

CAPÍ-

^6 8 Memorias do Jrcehlfpado de "Braga,

CAPITULO II.

Pedra mta-vel , que txijle em Aljardla.

Antonio de Soufa Pin- to , na Relação da Filia de /llfareila , feita por ordem do Excdler.tiffi- tno Senhor Aíarquex^de Alegrete , e a ílle re- mettida.

^uixp àceru da.fobre- díta pedra.

De alguns yejiigtos de ehr/ts ^marias , que exiftcm no termo da Villa de Alfarella»

770 T^T A Villa de AlFarella, para a parte do JLN Norte, entre el!e, eoNaícence, no

fim da Povoa^aó exifte huma pedra grande , e redon- da , obra da natureza, de altura de- quinze palnnos^ aíTentada em huma lagem firme , e na altura da pedra íe vem diveríos buracos abertos ao picaó , que indi- caó Ter antigamente o feu circuito cuberto \ e fe diz, que antigamente faziaó debaixo delia os Juizes da Villa audiência às partes , e lhe fervia de Cala de Au- diência , e Camara , e que os Juizes íe fentavaó no amparo , que faz a dita pedra para a parte do Norte, fobre a lagem em que eftá fentada.

771 Tudo iflo fe refere na Relac^aó , que man- dou à Academia Real Antonio de Soufa Pinto , qiie examinou pefibalmente as antiguidades defta Villa; e fegundo me parece , pelo que fica dito , foy efta pedra Ara dos Romanos , como as que referimos exif- tiaò em Panoyas, termo de Villa Real, o que fe confirma com os muitos veíligios de antiguidades Ro- manas , que ad:ualmente permanecem naquellas vifi- nhan^as , como logo veremos. O Povo de Alfarella tem em raõ grande eflimaçaó efle penedo , que que- rendo-o quebrar no anno de mil feiícentos noventa e

cinco

Livro III. Gp. IL ^^9

cinco , hum Joaó Lourenco, lho impcdio o Juiz An- dré Pinto de Araujo , com ptMia de oito mil cruzados, cjue lhe impoz, deíorce, que defiftio da pertencaó.

772 No fitio do Geftal , limite do Lugar de Mo- veàrd^ e infcTip^^ô m reira, termo, e Fregueíía de Alfarella , andando fitio do Ccpi. vrando Joíeph Ferreira , em Junho do anno de 1721. em huma Tua terra, que eílá arrimada a humas fragas, j4fjtomo de Soufa Pin- por onde paíía o caminho de carro , que vay do dito ^^^^.«''^«^'^i''^"'*^'»"^^'- Lugar para o de Cidadclhe , achou huma pedra Ro- mana , que tem cinco palmos de comprido , e dous e meyo de largo , tofca , fem feitio, e em groíTeira, com a íeguinte Infcrip^aó :

XXVIT V DIS. MA NIBUS ECO FLACILII MORSA SO SUI FILIO RE BURRO.

Quer dizer : Aos Deofes das almas , FlaciUo fe;^ tfla jepultura a feu filho Eco Morfafo ^hurro, Efla pedra eftá quebrada pela quarta regra , porque os viloens a pertendiaó fumir para o feu ufo, e foy neceííario paíTar Antonio de Soufa Pinto, com ordem do Excel- lentiííimo Senhor Marquez de Alegrete ^ àquella ViU la de Alfarella , e com authoridade de Jufti(^a fazer apparecer a pedra , e indo com os Officiaes da Cama- ra a examinar o fitio em que fe achara , íe cbfervoii eftâva todo elle cbeyo de immenfidads de carvoens

miúdos.

^70 Ade mortas do Arcebijpado de Braga.

miúdos , e alguns raó groíTos , que pareciaò traves queimadas , e de grande quantidade de grandes , e groílos pregos de ferro, e de algumas mifagras tam- bém de Ferro, e de muitas almotolias , ou vafos de barro vermelho bem fino , que levariaó quatro , e cinco quartilhos , humas vaíias , outras cheas de terra, e carvões miúdos , e de huns pós brancos , que pare- ciaò oíTos queimados , com alguns fios brancos , que pareciaò fer de linho. Também íe acharaó muitos copos de vidro branco, e fino, alguns groílos, ou- tros delgados , com feus rifcos de alto abaixo , e pouco difíerente o vidio do de Veneza j e juntamente mui- tas bacias de barro , e huma caldeirinha pequena com fua aza de cobre; porém nada do referido lahio iam, por tudo quebrar ao impulfo das enxadas com que para o exame fe cavava , fem embargo, de que mui- tas das almotolias , e copos íe achavaó dentro de hu- mas pequenas copeiras de quatro pedras quadradas fem feitio , tudo debaixo da terra , em altura de tres, quatro, e cinco palmos , e muitas das almotolias , e bacias tinhaó no fundo da parte de fóra o final como de dous punhaes , ou adagas cruzadas nefta forma.

Do

Livro IIL Câp. IL 47 1

Do qne fica dico íe , que aqiiillo era Tepultura de algum Romano da Familia dos P^eburros , e que to- dos aquelles traftes eraõ obra dacjuelles tempos , e fem duvida incluíaó em fi alguma luperíli^aó, e de- via de eítar alli mais gente fepulcada. O iuial dos pii- nhaes pode fer foíTe divifa do Oleiro, que fez as ba- cias , fegundo ufavao os Romanos.

775 Por baixo do Lugar deCidadelhe, termo, Rnwas autigas emCi< e Freguefia da mefma Villa de Alfarella , por cima do "^jl;^; ^^^^^^ ^. rioTinhella, que lhe pafla ao Norte hum tiro de toacmaçitado, efpingarda , no alto de hum monte fobranceiro ao mefmo rio .eftaô as rui nas de hum bom , largo , e for- te Caíl'ellode grande circuito, com muito delle le- vantado de boa , e bem lavrada pedraria , de altura de quinze palmos, razo por dentro, com vefíigios de porta de arco para a parte do mefmo rio, que muitas peíToas dizem lhe viraõ ainda levantada ; e também íe moftraó veftigios de outra para a parte do Sul , pela qual até à do Poente ha também ruinas de íegunda muralha , e foíTo , que indicaó huma gran- de fortaleza para aquella parte , por fer fomente por onde podia fer acometido , e naò pelo Nafcente , e Norte, donde fe defendia com o rio, afpereza, e altura da terra. Que eíías ruinas fejaó de obra Romana , fe coUige em razaõ de ferem de bem lavrada cantaria, como eraó as obras dos Romanos , o que naó tinhaó as dos Mouros. Abaixo do Caftello fe diz , que eftá no rio huma pedra de cantaria com letras , que fe de Verão quando a agua vay baixa , a qual poderá dar noticia , ou conjeótura mais individual da fundação ,

c tempo

47 2 Adcmorias do Arcehifpado de ^raga,

e tempo em que exiílio efle Caftello. Procurarey fc examine, porcjtie ao tempo que Antonio de Soufa Pinto paííou àquelle Lugar a examinar as ruinas del- le , hia a agua do rio taò alta, que naó deixava ver a dita pedra.

/'4//45 , e concai^iAaàes 77^ A meya legoa do dito Caftello , defde as vi- nojmo d€ Fecirojo. nhas , quc eílaó no íitio de Pedrofo, nas margens da , - „. ferra de Preza , limite do Lugar de Campo , termo

Antonio de Sottja Piti- . Air ii r ai P - j n

to acim citado, de Almrella , íe ve numa grande , e continuada valia , e em algumas partes tres unidas humas às outras , que atraveíTaó o ribeiro das azenhas , e fobindo hum mon- te , por onde paíTa a eftrada , que vay para Chaves , e diicendo defte monte, atravelTa outro ribeiro chama- do Ribeiro Covo , donde fobe o monte da Coelha , até defcer junto do rio Tinheila , e Te entende , e tem por tradição íer antigamente mina donde fe tirou me- tal. Neflas valias fe vem muitas , e altas covas , feitas em pedra branda à maneira de ciftcrnas, entre as quaes no rriefmo monte da Coelha , à vifta do dito rio, Caftello, e Lugar de Cidadelhe, por-cima. da eftrada , que paíTa de Alfarella para Chaves , pouco deíviado delia , eftá huma , que terá de largo em qua- dro na boca fere palmos , e de alto mais de duzentos, além do que eílá entupido. E no mais baixo do qua- dro, que eftá para a parte de cima , e Poente , Te hum grande, e alto buraco feito na mel ma pedra, aonde fe diz vay huma grande eftrada por baixo da terra , é do grande rio 1 inhella , e de outros mais in- feriores , e grandes valles , e ferras , por onde dizem fe communicavaó eftas minas para as do lago da Ri- beirinha,

Livro III. Cap, 11. 47 3

beirinha, de que logo trataremos} e fe comprova com o que affirmaó, que lanceado hum caó neíía cis- terna , ou mina , fora no dia feguinte faliir pelas ou- - tras minas , que diíTemos. Chama o vulgo naquella terra a efte género de concavidades Garalheiras, Que eftâ obra ícja de Romanos , e as de mais que logo di- remos, fe comprova das grandes minas, que elles abriraó, e os grandes theíouros, que tiraraó deftas terras, de que falia Plinio em diverfas partes, e outros muitos ; e a meu ver as valias acima ditas , e algumas covas deviaõ íer para conduzir, e reter a agua para a lavagem do ouro.

775 Na Fregueíia de S. Miguel de Tres Minas , Comd-viMs em s. termo da mefma Villa de Alfarella, no limite do Lu- ^'^'^'i 'Y/'' gar da Ribeirinha, por cima do melmo Lugar, a parte de Poente junto , e arrimado ao caminho, que jmmo dcSoufaFin- vay para Alfarella, eílá huma grande concavidade , a ioMm^tcmdo, que o vulgo chama Lago , aberta , e obrada ao picaó, em hum género de pedra mármore, a que alii cha- maõ Louíinha , olhando para o Norte , íobranceira à ribeira , que paíTa pelo meímo Lugar da Ribeirinha , a qual concavidade terá de circuito por fora huma grande meya legoa , e de profundo mais de duzentos e cincoenta covados , e de comprido por dentro do feu vaó de Nafcente a Poente mais de mil e duzen- tos covados , e de Norte a Sul fetecenros , a qual tem a tradi(^aó íer mina, e o conhrmaó muitas circunf- tancias , por quanto íe acha toda a defcida , que delle cahe para a ribeira , chea de immenfos mqnces de cafcalho , e feixos , que da mina fe tiravaõ por huma Tom. II. C bem

474 ^^^^^^'^^^ Arcehifpado de ^raga.

bem feita ferventia de carro , que tem feita na mef- ma pedra para a parte do Norte , entre elle , e Poen- te , em altura de mais de cem palmos , e he obra taõ grandioía , que fe ellá conhecendo fer grande o po- der , que para ella concorreo. Ao entrar da principal ferventia , em altura de mais de trinta palmos , em bum feixo , ou penhaíco , que lhe faz muro , fe bum buraco redondo , que o Pároco daquella Fregue- íia afirmou era taó continuado ao picaò pelo penhaí^ CO dentro, que naó havia peííoa , que quizeííe che- gar até verlhe o fim. E à parte efquerda , junto da porta da mefma ferventia , eftá outro buraco feito em pedra loufinha ao picaó , de tanta largura , e taó alto, que bem entra por elle , e muito à vontade qualquer bomem agigantado, porém de comprimento terá vinte palmos , em razaó de eftar entupido. E conti- nuando a concavidade , ou lago à parte do Nafcente, adiante do meyo delia , à maó efquerda eílá hum grande , e largo buraco , feito , e obrado da mefma forte , que os fobreditos , em pedra louíinha , por cu- ja entrada cabem tres , e quatro homens livremente, e havia alli tradição , que por dilatado no compri- mento, recolhendofe alli huns porcos, fe perderaó , razaó, porque ninguém fe atrevia a entrar dentro. Frofegue-Je Porém Antonio de Soufa Pinto , obrigado

da fua curiofidade , e querendo dar noticia à Acade- mia Real , animado da companhia do Padre Silveílre de Meirelles , Pároco daquella Freguefia , e de outras peííoas , feita primeiro prepara<^aó de luzes , entrou dentro com os de niâis, e èm diílancia de vinte paíTos

acharão

Lkro III. Gp, IL 47 ç

acliaraó hum largo obrado na mefma pedra a modo de fala , e taò alca , que com as luzes íe lhe naõ via o te6lo , e à parte efquerda viraó como principio de ou- tro buraco levantado do pavimento coufa de quatro palmos, e de comprimento de dez palmos, com feu largo para a parte direita ; e profeguindo a concavi- dade principal, na direitura em que corria de fora, mas mais baixo , em diílancia de quarenta paíTos mais , dcíccndo fempre ao fundo , lhe acharão fim , repartido em tres buracos eftrcitos íobidos para cima, e de pouco comprimento , e logo pouco adiante da mefma parte efquerda , no alto da rocha , que lhe faz muro, eífá obrada huma janella bem feita, quadra- da, e de baftante largura , e no meyo do pavimento da dita concavidade eílá huma baixa , que fe acha com agua , e dizem a conferva fempre , mas de pou- ca altura, E na cofta, que lhe faz o muro de Naí- cente , bem levantado no rochedo , edá feito da mef- ma forte hum grande, e largo buraco, que terá de largo na entrada dez palmos , e doze de alto , e quan- to mais vay correndo, tanto mais largo , e alto he , e a diífancia de quinze paffos fe acha entupido com hum penhafco, que com a humidade do tempo lhe desfechou do tecfto. E cofteando efte meím.o lailo , bem levantado , e diííante do buraco fobredito doze paíTos , eftá outro bem levantado vinte palmos, olhan- do para o Norte , dentro do qual , a quatro paíTos de diftancia, fe encontra huma profunda ciílcrna, feita no meímo rochedo, aberta ao DÍcao, de largo em quadro de doze palmos., em que fe agua de altura

C ii de

47 ^ Ade mor! as do Ãrcehijpado de '\Braga.

de mais de cento e trinta, e parece fer profLindiífima pelos efífeitos , que faz lanceando nella huma pedra. E logo adiante cinco palmos fe outra cifterna do mefmo feitio, forma, e largura, e pelo pavôr, que fe lhes introduzio com o encontro da primeira, fe naò atreveo Antonio de Soufa Pinto, e feus compa- nheiros a examinar a altura defta fegunda , n\as lan- çando dentro huma pedra , formarão juizo de que te- ria trinta palmos de altura , pouco mais , ou menos , e parece que temerofos , íe retirarão fem profeguir a inveftigar o fim da concavidade, porque naó diz mais a fua Relac^aó.

Comhma 4 àefcripcaô. , ^7 ^ ^^'í'^ ^ concavidade até aqui

delcripta , em a primeira vinha, que he de Domin- gos Martins Leitão, do Lugar deFilhagofa, da mef- ma Freguefia , eftá com a porta ao Norte hum gran- diífimo largo , e alto buraco , tanto que cabem por elle tres carros de monte carregados , e emparelhados, que dizem fer eflrada por onde os das minas do cam- po , e Cidadelhe fe communicavaó com eílas da Ri- beirinha , como comprova o cafo do caó , que acima referimos. A tal concavidade íe continíia fempre larga, com feus friíos feitos ao picão, à maneira de affentos , e em varias partes tem columnas com arcos de cantaria bem lavrada , e efcodada , que parece fe- rem portas nos lugares aonde podia ter alguma ruina pela brandura da pedra , e em diftancia de mais de feflenta paGTos fe huma ciflerna , que quaíi toma todo o pavimento , e tem a agua raza com elle , e indo pela dita cifterna adiante ^ pelos lados , e friíos,

profeguio

Livro IIL Cap, II.

profeguío D. Gregorio de Caftellobranco , ultima Commendador daqiiella Commenda de S. Miguel das Tres Minas , a examinar eíla concavidade, até ver entrar de cima huma pequena luz , com o receyo de que lhe fakaííem as luzes , que levava, que eraó vélas de quarta , e hiao meyas gaftas , naó profeguio a ver o fim da íobredita concavidade , e fe ficou enten- dendo , que a luz pequena , que viraó , e onde para- rão , ficava na diftancia de hum quarto de legoa da entrada.

778 Que a fobredita mina feja obra dos Roma- Prova^fe fer ohr4 do$ nos , fe deixa bem conhecer do primor , e grandeza

das obras referidas , de que naó eraó capazes as na- ^oens barbaras de Godos, e Mouros, que depois ti- veraõ o dominio de Hefpanha. Nem obras taó cuí^ toías fe haviaó de obrar íenaó com grande intereííe, qual era o do ouro , que os Romanos tiravaó das mi- nas de Heípanha , e de outros raetaes de que entaõ abundava j nem faítaó por alli memorias de Roma- nos , porque na Igreja de S. Miguel das Tres Minas , íe acha no pavimento junto da porta traveíTa , que fi- ca ao Sul , huma campa de cinco palmos e meyo de comprido , bem lavrada , porém com hum pedaço quebrado, a qual tem huma Inlcrip<^aó Romana muy gafta , de forte , que a naó percebo bem , mas parece ter fervido de pedra fepulchral a algum da Fa- milia dos Reburros , e parece lhe o titulo de Va- raó Piedofo.

779 Por cima defte mefmo lugar da Ribeirinha, CaftelU âa mheimha. no alto de hum monte , que lhe fica entre o Nafcen- foTúmçhíT^* ^^^^

te

47 ^ Memorias do Arcehlfpaão de ^raga.

te ao Sul , fe vem os veftigios , e ruinas de hum pe- queno Caftello , feito de pedra loufínha branda , que de todo eílá demolido por terra , e lhe chamaó o Caf- tello da Ribeirinha. De que tempo foíTe o fobredito Caftello, o naó fey affirmar, porque nac acho cir- cunílancia por onde fe poíTa conjecturar o tempo da fua fundação , e exiftencia. Faço aqui mençaó delle com a occafiaó da concavidade acima dita , por eftar naquellas viíinhan(^as , e fe ignorar o tempo da fua exiílencia.

Co.c,viUe.oL.fr.r 7^o Na mefma Fregueíla de S. Miguel de Tres ' das Covas, e fuadef- Minas, no mais alto de hum monte, que fica fobran- AmtllodeSoufaPin- c^iro 30 Lugar de Covas, para a parte do Norte, ío, acima citado. eftá outra grande concavidade , a que o vulgo chama também Lago , fendo certo íer huma das tres minas, de que fe intitula a Freguella. Tem efta mina , lago, ou concavidade de comprimento de Naícente a Po- ente mais de oitocentas varas , e de largo de Norte a Sul quatrocentas , e de alto na mayor concavidade cento e feífenta. Tem dentro em íi alguns caftanhei' ros 5 e para a fabrica da mina tinha caminho , e fer- ventia aberta no rochedo , em que toda ella he feita, para a parte do Poente , que ainda hoje íe conferva. Tem na rocha, que lhe faz muro da parte do Norte, entrando para ella com a porta ao Sul , hum bem fei- f to buraco na mefma rocha ao picão , de largo , e alco

em quadrado de dez palmos , pelo qu:il em diíbncia de quinze varas fe acha hum lago de boa , e friboroía agua , de que íe vakm os caminhantes da eítrada vi- íinhâ, que vr.y de Mur<^a de Panoyas p^ara S. Marti- nho

Livro IIL Cap, IL 47 P

rtlio de Bornes. Eíle Ia naõ excede no mais alto de dons pai nos , ao me lOs em cerco tempo , e aca- ba em diftancia de trinti palmos , e no hm fe vem tres veas de mecal donde mana aquella agua. E no mais^ alto fundo deíla concavidade , eíU em huma pedra levantada do chaó vinte e cinco palmos , feito como hum Altar ^ e por cima na mefma pedra hum arco como de abobada, e por baixo delia huma gran- de íala feita na meíma pedra mármore , donde con- tinuamente eftá manando agua. E em direitura defta à parte do Nafcente , fe em a grande altura da rocha , que lhe ferve de muro , hum buraco redondo, ao que parece feito ao picaó , donde continuamente mana agua corredia. E no fim deíle lago , à parte do Nafcente , arrimado a huma alta rocha , que naquelle íicio lhe faz muro , eftá hum profundiííimo buraco , que íegundo fe , teve principio no alto da meíma rocha , com outro , que fe moftra eftarlhe apar , e que desfechando a fraga para dentro , ficou entupido o que ficava à maõ direita , olhando para ella de den- tro, e o que lhe ficava à efquerda com hum grande penedo arrimado , que lhe tapa muita parte da boca. E a efte buraco chama o vulgo GaralheWa Goteira , e dizem fe communica com a concavidade , que acima iliííemos examinara D. Gregorio de Cafíellobranco.

781 Ha nos arredores deRa mina algumas valias nomejmojnk. de grande altura , e muy largas , que quan a rodeaó, e fora delias immeníidade de montes , e ferras de ter- Antonb de Sonfa Pifj* ra, pedra, e feixos , extrahid^os, íegundo íe diz , da '''"""""''"'^'^ fabrica delta mina. E pouco longe paia a parte do

\

480 Memorias do Arcebtjpado de ^raga.

Sul , no fitio de Comardaó , fe diz fer a Aldeã onde moravrió os trabalhadores , e fábricadores deftas mi- nas, e ainda fe vem veftigios de cafas; e ahi meímo no alto de hum valle eftaó oito buracos abertos em rocha como cifternas , viíinhos huns aos outros , e com coínmunica^aó. Pedras com Infcrip^ôes 7^2 E neíle mefmo íítio haverá trinta , ou qua- nQhadAi no mejmo fitio* renca annos fe acharaó tres pedras fepulchraes ; feitas ^.^ de cantaria bem lavrada , de que carece toda aquella to"^°IíimtçMút ^^^'^^ ) ^ Fí"egueíia : deftas duas acabarão logo em hu- ma fragoa de Ferreiro, a outra levou Francifco Pires para o lugar de Villarelho , onde a vio Antonio de Soufa Pinto quebrada ; parte delia fervia de peitoril a huma janella , e outro peda<^o fervia de lado a hum forno, e unida a pedra , tinha a feguinte Infcrip(^a6 :

C. COVNE.

ANGUS FUSCI E CLU N. XL LA^CIV:

V S C

XXX H S E

Eíla ínfcripçaõ he difficultofa de entender , aíTIm por eftar quebrada a pedra, e lhe faltarem letras, como pelas abbreviaturas pouco uíadas, que tem. O que fe percebe com certeza he , que foy fepultura de Cayo Cuneo Anco , filho de Fufco. O de mais pode ter diverfâs interpretacoens j porque as letras CLUN

podem

Livro IIL Cap. TL .481

podem dizer Clunienjts , iftohe, natural de Clunia, ou podem fer letras numeraes de dinheiro , e a letra ISl figniíicar Numus , o dinheiro. He laftima , (]ue íe cjuebraííe , porque as letras , que falraó na quinta , e íexta regra , nos poderiaó íervir para entendermos as que exiftem. Antonio de Souía Pinto ordenou aos , Officiaes da Camara de Alíarella conduziííem efta pedra para a Villa , e a puzeíTem em lugar publico , e accommodado , o que naó executarão.

785 Também no Lugar de Villarelho , da rueí- Pedra eominfcripçaô, ma Freguefia das Tres Minas, em cafa de Domingos mniUn^^ Lopes , vio Antonio de Soufa Pinto hum cippo , acha- do no fitio a que chamaó ChaÕ dos Àfnos , indo do mef- mo Lugar de Villarelho para o de Tinhella de cima, o qual cippo he de cantaria bem lavrada , e efcodada com íuas meyas canas , e tem a feguinte Inícrip^aó : ^

I O M .

VOL SOI MIL. LEG. ^ VIL GECA

lULLINOE 1APR

Parece que quer dizer : Efla memoria prometteo Julio Soyo Soldado da Legião Sétima Gemina : : : : : e a man- dou fa;^er Julino , Soldado da efquadra Pretoriana. Efta pedra ordenou Antonio de Soufa Pinto aos Officiaes da Camara de Alíarella a conduziííem para a Villa, mas íem eífeico. Do referido coníla baílantemcnte , Tom.U. D que

482 Memorias do Arcehljpkdo de Tiraga.

que as minas , e concavidades acima relatadas faõ obra Ronana, fegundo o que prudentemente pode- mos conjeélurar.

Orifra^ c^fiedviudes 7^4 Na meíma Fregueíia de S. Miguel de Trcs fto ptio de Reinei. Minas , em hu!na pequena ferra eminente ao Lugar , r r.. de Revel , fe vem hu mas concavidades mais baixas,

Aitomo de youfa Pin- i , . 1 r

to acima cuado. í]»^!^ as que antecedentemente deixamos delcritas , as quaes conrta com certeza ferem minas de eftanho , e ainda permanecem os veítigios de hum aíTude , ou cano por onde fe conduzia a agua, para lavar , e ti- rar o eftanho , do rio Tinhella , tomada no Lugar de Tinhello de cima , em diftancia de grande legoa e meya , pelas repetidas voltas , que corria o aíTude , atraveííando por baixo do chaò as alturas de hum grande monte, que o impedia no Lugar de Filhago- ía , e fe diz , que eftas minas ainda foraó cultivadas ha menos de cento e cincoenta annos por hum Fer- nando Annes, natural de Madrid , de quem foy filho Cofme Machado, e de quem procede a Familia dos Machados daquelle termo, e Lugar. Se eftas ultimas minas exiftiaó no tempo dos Romanos , naó íe pode taõ facilmente afirmar. Eu entendo , que fim , em razaô das outras acima , e também da obra do aíTude em tao grande diíiancia penetrando montanhas. Outm rvefli/ws de an- 7^5 Outros veftigios de antiguidade, dignos de ti!^'iidanes no termo de reoaro, fe encontrao no termo da Villa de Alfarella ,

jíUarella. ' , . . , ,

que me pareceo relatar aqui , porque ainda que nao jntofih de.foufa Pin- confte do tempo da fua fabrica, fe pode prefumir fe- to, aciiiia citado. j^^Q tempo dos Romanos , e da Gentilidade , e que

lhe ferviíTem para alguma fuperfti^aó. Na Fregueíia

do

Livro IIL Cap, IL 4S 3

do Efpirlto Santo de Alfarella , no Lugar de Robore- do , no ficio a que chamaó a Abilheira , entre o Po- ente , e Norte do Lugar aguas vertentes do rio Ti- nhella, eftá hum grande , e alto penhafco , a que cha- maó o Penedo do Corvo , porque tem hum corvo de vulto feito na meíma pedra. No l>ugar das Cofti- nhas, termo da Villa de Alfarella, na Fregueíia de S. Sebaftiaó , no fitio da Veiga dos Arcos , eílá hum grande penedo de pedra firme, ao Nafcente da mcí^ ma Veiga , e nelle efculpida de vulto a figura de hum gato, em razaó de que lhe chamaò o Penedo do Gato. No limite do Lugar dos Villares , no íitio de Valbó , quaíi meya legoa para a parte do Norte , no alto de hum monte imminente ao rio Tinhella , eftaó as ruinas de hum Caftello pequeno de pedra de can- taria lavrada , todo demolido ; embaixo do Caftello , junto ao rio Tinhella , eftá hum penhafco , em que eftá feita de vulto a figura de huma mulher da cin- tura para cima.

CAPITULO IlL

De outros yefltglos de antiguidades Romanas , que exifiem na Comarca da Torre de MoíicorVo,

A Frouxidão, defcuido, e vagar com CoMca%i^a/ies em jTjL que os Miniftros Reaes , e Eccleíiaf- ^í'"''^ '^'■^"''P" ticos da Comarca da Torre de Moncorvo , executa- rao as ordens, que tiveraó para indagarem, e remet-

D ii terem

484 Memorias cio Ãrcehtfpado de ^ragã. o Paire Paulo Gomeíy terem à Academia Real a noticia das Antiguidades

daY^ljTrrZn^^^^^ ^"^s ^^^^^ > ^^^W ^ dermos muy diminutos lomtHdeUrros,naRe' capitulo. Junto ao Lugar de Urros , que difta "es legoas da Villa de Moncorvo parada parte do Sul, u^aó das Cid lies anti' ^tiítonzQ de huma Igreja da invocação de Santo Ap-

Pãs do Bífpo de Urauj- 1- r o-' ^ n jj*t -

polis joi. i^o. c 145. poiínano, hca para a parte do Poente da dita igreja hum cabeio levantado com baítante afpereza para fe poder fobir ao alto delle. A coroa defte oiteiro eílá cercada de muros muy fortes , fegundo Te colhe dos veftigios , que ainda permanecem , e também dos veíligios de alicerfes de caías , fe houve alli anti- gamente Povoação. Para aparte do Norte, na raiz dos fobreditos muros , no fundo de huns altos roche- dos , efl:á huma concavidade íobterranea , a que o vulgo chama o Buraco dos Mouros, e por dentro tem largura baftante para andarem cinco, ou íeis peííoas emparelhadas. Houve peíToas , que intenta- rão invefligar o comprimento , e fim defta notável concavidade , mas à vifta do muito , que corria para o interior , deíiftirao da empreza , depõem , que dentro acharão largos formados à maneira de cafas. Efta he a noticia , que unicamente chegou à Acade- mia Real defta antiguidade, mandada pelo Pároco de Urros , na Relação , que fez por ordem do Illuftriííi- mo Arcebifpo Primaz, a refpeito da fua Igreja. rtuí ira. fe ferem niitus 7^7 Quc eíla concavidade leja obra de Roma- /4í/^uí^<l5í/oti(:(?w4wí?^ j-ios , o naó poíTo íegurar, em quanto fe nao mais individual noticia delia , mas prefumo fejaó minas fabricadas por elles ; afíim pela grandeza da obra , como também pelas lalas , ou calas , que dentro fe

diz

Livro IIL Cap. IIL 485

diz exiftem. Nem obfta o chamarlhe o vulgo o ©«- Mco dos Mouros j porque os rufticos daquelles Paizes,fe- melhantes antiguidades, todas as attribuem aos Mou- ros ; eíies porém naó coftumavaó nas fuas obras pro- cederem com tanta grandeza , nem dominarão paci- ficamente o Paiz de Traz os Montes , e Entre Douro e Minho, tantos annos, que podeíTem entregarfe â fabricas de tanto difpendio , e taó cuftoías. ,Ao con- trario dos Romanos , naó fabemos , que foraó Se^ nhores pacifícos de toda Hefpanha por efpa^o de qua- íi quinhentos annos 5 mas outrofim , que da Provincia de Afturias , e GaUiza , em cuja demarca(^aò cahia tu- do o que hoje chamamos Traz os Montes , e Entre Douro e Minho, tirarão immenfa copia de ouro, prata , e outros metaes , e também , que em todas as fuas obras procediaó com grandeza.

788 Os moradores do Lugar de Urros aos vejflí- Sitio (hmado Riívm» gios de Povoac^aõ , que diíTemos exiíliaó na coroa do

oureiro , que lhe fica defronte, chamaó ^yena , e di- zem, que alli foy a antiga Cidade de Ravena, em que foy martyrizado Santo Appolinario , cujo corpo dizem íe conferva no Lugar de Urros , como a feu tempo fe relatará neftas Memorias 5 e entaõ veremos também de cujo Sanco Appolinario he o íobredico corpo.

789 Emhumíicio, limite do hugzr àe Seixo fCo^<(i»ofitio de Smo. termo da Villa de Anciaens , por cima da Capella de

NoíTa Senhora a Velha , em pouca diííancia , exiftem tres covas de altura de vinte e cinco , e trinta palmos, e taó largas , que no fundo de cada huma eftaó plan- tadas

^26 Aiemorias do Arcehtfpado de ^raga,

Antonio de Soufa Pifi- ^^^^^ muitas oliveiras , e he tradicaó ferem minas de to, e o Reytor Joaô ouro , OU prata dos Romanos , e que para ellas vinha RdílJ^de^ZilLVn. ^^^^ que fe tomava no ribeiro da

mettida 4 Aç(idmi4 OíTeira , no íicio dos Piíoens , por baixo de Béíleiros, que difta dalli tres milhas , e que corria pelo deípe- nhado daquellas ladeiras , de que ainda hoje permane- cem veftigios. Dentro de huma concavidade, que eítá por baixo deitas covas , pegado a ellas quafi entu- pida , íe diz por peííoas, que nelle entrarão , que eftaõ larguras em forma de cafas , e que deftas por outra concavidade , que eftá debaixo da terra fe vay ao rio Douro-, que difta a ter(^a parte de huma milha. Em razaó das covas acima chamao a efte íitio Valdecovas. Rochedo mtd-oú jmto 79^ No deftriólo de hum Lugar chamado Li- ao Douro, efeus cara- nhares , termo da Villa de Anciaens , meya legoa do *^*'^"* Lugar , e a vinte paíTos do rio Douro , por cima do

Afitotiio de Soufa Pin- Cachaó da Rapa , eftá hum grande rochedo , que fe to, e Joaô Pinto de cJeípcnha para o rio , e no rochedo hum penedo de

Moraes acímAallega- .r r ' 'rt

dos. trinta palmos em alto , o qual de tal lorte íe alarga ,

e eftreita , que em cima , e em baixo tem oito palmos de largura, e no meyo doze. Em a fuperfície , e facè defte penedo eftao gravados de azul , e vermelho , com cores muy vivas os careóteres feguintes.

Eftes

Livro IIL Cap. III. 487

791 Eíles caraifleres , diz a gente daquellas cer- Ctrcmjimh , que ft ras , que fe rerormaó todas as manhaas de S. Joaó , e í/cj í4íí wr<ífl€- Antonio de Soufa Pinto , na Relação , que mandou à

Academia , affirma íer aíTim. O que naõ tem duvida he , que a pedra na face dos caraàeres eftá toda liza, e no reftante cuberta de mufgo. No fundo defta pe- PortéteJaU ^j^^^^fi^ dra, em que eftaó os íobreditos caraóteres , para a par- ""Z"''^'' "'^^^^^ te , que olha para o rio Douro , eílá hum portal , que parece obra da natureza , e entrando por elle dentro, ie acha em pedra firme huma grande fala com aíTen- ros à roda , e no meyo huma grande mefa, tudo de pe- dra , íegundo dizem peííoas , que alli tem entrado , e aífirmaó verfe defta fala huma porca , que vay para outras mais para dentro , onde todos receaõ entrar , porque intentando fazello em huma manhãa do S. Joaó o Padre Domingos Mendes , com fobrepehz , e eftola , no anno de 1 687. para defengano dos que di- zem exiílir alli hum grande thefouro encantado , ou por outro motivo , ao entrar da íala interior fe en- cheo de tanto medo , e fentio hum cheiro taõ fétido, que ficou tremulo , e infenfato , e a poucos dias lhe cahiraó os dentes , nem fallou mais , de forte que ie entendeíTe bem.

792 Tudo o que temos dito he extrahido das Re- Outramida do mfmo lacoens , que Antonio de Soufa Pinto, e o Reytor ''''•^^^^''í

Joaó Pinto de Moraes mandaraó à Academia Real. Outra Rela(^aó particular defle penedo mandou a eRa noíía Cafa de NofTa Senhora da Divina Providencia Jofeph de Macedo Roíales , aífiítente em S. Joaó da Pefqueira, Villa ficuada nas margens do Douro, thiíaí ItjifmU^^^^^

parte

488 M emonas do Arcehifpado de ^ragã.

parte da Provinda da Beira , o qual ordenou a feu ir- mão Antonio Rolales de Carvalho, morador no Lu- gar de Nogarelo, perto do penedo de que íe trata, o cxaminaíTe ; e para que fe veja o em que concorda , e o em que difFere do que fica dito , a copio aqui, e hc a feguinte : Entre o Cachão da , e a Tejqueira de Ma- rulho ejlá huma penha de Jlém Douro , limite do Confelho de Anciaens , Comarca da Torre de Momoryo , ejlá proxi- ma à corrente do rio , 7nas aonde as aguas delle naÕ chegaÕ, jíbre huma faxa na dita penha , que terá trinta palmos de dto , e pouco mais de tres de largo. He a penha de cor par» da jfuhftancia arenofa, mas folida^ de que neftas partes fe fa;^em portaes , e cunhaes , e fa:^endo diVtfaÕ defla faxa, em palia , que eftd leyantada quafi direita entre mais pe^ nha , em tres partes , o terço , que fica no meyo , eíld diVi^ dido em quadrados todos enxaquetados , fendo a diVtfa dos efcaques pretã , e o campo delles Vermelho. Os que mais tem que notar ,/aÕ cinco. ISlo defia pe?iha ha tradição, que haVia efitrada para huma gruta , a cujos feyos ninguém entrou , porque cojiftaya , que querendo hum Clérigo de Li- nhares , Lugar diíiante huma legoa do fitio , examinalla , fahira delia mudo , Jem quehouVeffe diligencia fufficiente, que em todo o tempo , que depois yiveo , declara ff^e , 7iem por acenos , 7iem por e feri to o que dentro Vtra. Hoje Je naÕ^ rícha a gruta j porque fe Ve fitio onde haverá quin^ annos VieraÓ homens defte ^yno , cuja terra fe naÕfahe, com ifiílrumentos , e rompendo a gruta com homens , que pagarão bem , conduzidos do Lugar de Nogarelo , cayaraÕ, e defcubrirao Vafos de barro , de que ainda fe achao frag- mentos, e ficou entre os jornaleiros noticia , que lega- rão

/

Livro II L Gp. II L 48 p

r^Õ humã grânde Cru^ de prdta , e he tradtçdÕ , que cm aqudlds pcnhds eíiaÕ escondidos grandes thcfouros. Q^or ejèa penha , que tem os cara&eres , corre agua do montado todo o Inverno , c de VeraÕ ma}ia huma ténue porção oleofa, como de betume , e fa^ face para a corrente das aguas do Douro, Atéqiii a Relacjaó dica , com a dara de vince c cinco de Novembro de 1725.

79 5 Nem a fabrica , nem os caraâ:eres da obra jm\o 4cerca dojohrt- indicaó fer dos Romanos; porém também naó pare- àno whsdo ^ ( çarude- ce, nem dos Godos, nem dos Mouros. A verdade he, que mal fe pôde formar juizo dos Authores delia. O ^ que parece he, fer obra do tempo da Gentilidade , ou foffe no tempo dos Romanos, ou antes, O que fe diz da renovarão das letras na manhãa do S. Joaó , coufa he , que neceííita de mais exaóla averigua (^aò , e a mudança dos ares , e névoas do rio Douro pode- rão concorrer muito a efta apparencia. Como quer que feja, à vifta de tudo o que fica dito, he digno de alguma admirac^aô aquelle penedo, cara<íleres , e con- cavidade, de que tornaremos a tratar na Geografia moderna , a tempo em que por ventura íe tenha ave- riguado mais efte penedo, e as íuas circunftanciaSo O vulgo chama àquelle ficio Js letras , em razaó dos caracteres referidos.

794 No termo da Villa de Villaflor, em huma Ca-vas, e w/Vw w< Aldeã, a que chamaó Macedinho, eftá hum monte de mediana altura , onde fe vem innumeraveis , e profundiífimas cavas, algumas talhadas em penhaícos, que claramente denotaó ferem minas; naó nos diz mais a pequena ^ e diminuta Relacaó , que mandou a Tom.lí. £ Camara

^.po Memcriis do Arcebifpado de Braga,

Camara de Villafior, facisFazendo-le com dizer, que a grandeza das minas , e o graviíiimo dilpendio , que moftra a faíflura delias , indica eraó de meu! precio- íiííimo ; porém iílo he o que baila para as regularmos por obra Romana , íenaó com certeza , ao menos com muita probabilidade, pelas razoens^ que acima fícaó ponderadas.

CAPITULO IV.

De alguns yefllgtos de Toyoáçoens ^omdnas y que exijiem no termo j e Comana de Villd-^eal.

Ruhm ántig4i no fnio 79^ A ^^"^ memorias , e ruínas da Ci- dt Crap. \ ci;^Je de Panonias, de que tratamos

no capitulo letimo co livro antecedente , exiílem na

Helaçaõ dc Filia He-il , \t-U t> \ a-

remettuU à AcaAemu Comarca de Vilía-Real outras muitas ruínas , e veiti- Real pelo Senado da- crjos de Povoaçoens Romanas > de que ignoramos os nomes que tinnao , e deitas trataremos neíre capitulo. Na Fregueíia de S. Miguel de Poyares , da Comarca de Villa- Real ,em hum íitio^ a que chamaõ o Crafto, ertá hum outeiro , e nelle huma cerca , a que chamaõ o Muro, que moílra ter íido Fortaleza pelos veítigios, que ainda exiftem. Tem-fe alli achado grandes pe- dras de mármore, íinal de edifício nobre , e cuftofo, porque carece aquella terra, e as íuas viíinhanças delle género de pedra , nem podia íer conduzida fe- nr.ó de grande diftancia , porque a que ha naquellas

partes

Livro IIL Cap. If. 45? I

partes a que cliamaó Louíínha , e deíla com arga- maca foraó fabricadas as íbbredicas muralhas.

796 No íicio chamado a Fonte do Milho, fe ontr.is w de Fonte de vem igualmente ruinas de outro muro, e alli fe tem

defcuberto muitos picaveques , tijolos , e aleumas , . . calas lubterraneas ; e hum , e outro litio dizem os Paizanos terem fido Cafiellos de Mouros ; poreai mais provável parece o foííem dos Romanos pelo cuftoío da obra.

797 No Lugar de Abaetas , da mefma Freguefia, o^ttr^í m Lug^r de na diftancia de hum tiro de mofquete do íobredito

Lugar, eftá hum monte muy alto , a que champô o Craílo, e no cume delle íe vem ruinas de edifícios, que moftraó ter fido Povoa(^aó , e fe tem por certo foy hâbitac^aó dos Romanos , porque entre aquellas ruinas fe acharaó , e achaó quantidades de dinheiro de cobre , que tem de huma parte a figura de hum homem , e da outra o feitio como eícudo de armas , e algumas letras no âmbito , que dizem os naturaes, diziaó %omamrum. Defta forte vem eíla noticia na Relaí^aó, que a Camara de Villa-Real mandou à Aca- pja^aô admiJoU demia. He certo, que agente, que deu efta infor- H2'^erf, maí^aó , naó deve ter grande ufo de moedas Romanas. Eu entre algumas , que tenho vifto , naó me lembro de achar jamais a palavra ^m.mus ^ ou ^manoynm. Sim ha muitas , que tem a letra fomente embaixo, e iíto he o que eíía gente devia de achar nas taes moedas. E quanto ao eícudo também naó vi nenhu- ma, que tiveíTe efcudo com armas; porém mui- tas , que trazem gravados efcudos , e armas olíenfivas, e deíenfivas. E ii Na

ReUcaê acima j foi, I i6.'verj.

Rochedo notwveL

Jíela^aS acima 1^5-

4 5? 2 Memorias do Arcehifpado de ^raga.

Oraras m s. Joaô cks 79^ Frcgueíia cí'^ S. Joaó de Covas , ha hum Titio , a que chamaó a Torre , no qual fe vem as ruí- nas de dous Caílellos, onde cem apparecido muitas moedas Romanas, íinal de ter ali i havido Povoação íua.

799 No fim da Fregiieíía deNoíTa Senhora d^e Adoufe, para a parte do Norte, acima da eílrada , que vay de Villa-Real para Chaves , entre os Lugares de Eflaris, que he deíla Freguefia , e o de Bonagou- ro , que he de outra , eiiá hum íicio , a que chamaó a Mm do homem ; alli em hum grande rochedo eílaó de- buxadas , e aberras quatro mãos huma feita até o cotovello do braço, outra menos alguma coufa , e duas até palTarem as munhecas; e junto delias edá outroíim aberto ao picaõ o fobrado de hum carro , da grandeza de rres palmos , que vem a fer todo o fo- brado de hum carro fem rodas, imaginou mnira gen- te fer aquillo marca , e final de algum thefouro , e com o intento de o acharem , cavaraó naquelle íitio, íem efFeico. A meu ver aquillo foy obra de algum PvOmano, cuja fignifícaçaó ignoramos. Obrigame a eíla prefumpçaó o verem-fe dalli hum cirodeefpin- garda , da parte debaixo da eftrada , junto ao rio Cor- go, alicerles de muralhas , e edifícios, que exiftem em hum altofinho , que íaz hiim grande defpenha- deiro para o dito rio, e ha tradição, que alli foy Po- voação de Romanos , confirmada com o final de fe acharem dentro das muralhas, principalmente para a parte do Norte , dinheiros , e cavando- fe em qualquer parte, íe achaõ moedas de cobre, e em grandiífim.a

quan-

Livro III Cap, V. 45? 3

cjuantiJade do feitio , e tamanho dos ceitis , c]iie an^ tipamence íe ufavaó nefte Reyno , mas todas fahem taó desfiguradas, e gaftas do tempo , que fe lhe naó divifa letra , ou figura alguma , antes íe desfazem fa- cilmente entre as mãos.

CAPITULO V.

Dos "Vefligios f e rui/Jâs de fabricas ^omâ7iíis , que exi/" tem no temo de Chayes , efuas Vtlrnhancas*

800 X Unto a huma Aldeã , chamada Outeiro yefiis>io% Bommoí ^ Julaõ, a meya legoa da Villa de C\\2í- outeiro ^íifaô.

ves na quinta de Joíeph de Sampayo e outras pro. ^^^^^^^^^ priedades vilinhas a ella , he lem duvida , cjue houve jhren, mMa^aí Povoac^aó no tempo dos Romanos , o que fe prova ^^«•'^^h de fe acharem naquella circunferência continuamen- te lageados de cantaria , alicerfes de pedra lavrada , tijolos granctes , e ladrilhos de diverfos feitios , e frag- mentos de fabricas Iwnptuoías , que íepultaraó os tempos , e os íiiccefTos. E a dous tiros de mofquete ^ no Lugar a que chamaõ Saymoens , em huma vinha òo Capitaô Lourenco Alvares , íe achâraó fobterradas íemelnantes ruinas. Donde fe , que as fraldas da íerra , que olha para o Norte , e faz frente ao plaino da veiga de Chaves, eflava no tempo dos Roma» nos povoada.

801 Na Aldeã, a que chamao a Granginha, Outros mCrofi^ir.ha. defcobrem continuamente ruínas de ediHcios Roma-

nos

45? 4 ^^^^^^^^^^ Arcebifpddo de ^raga,

Tbomé (k Td-vora e nos , como faó capiteis de columnas de jafpe , tro(^õs Mreu 4çm<icmáo, Eft^tuas , c outras coufas , que confírmaó o que acima fica dito, e finaes de ruinas Romanas fe achao no íicio, ou Lugar de Santo Eflevaõ; e outroíim na Aldeã das Eiras , tudo , ou na veiga , ou na raiz da montanha , ou ferra , que acima dilTemos. Ontm ftofttiochamddo So2 Entre O Lugar de Outeiro Seco, e Villa- Lagares. meam , a diftancia de legoa e meya de Chaves, em

, , ^ hum fitio chamado os Lagares , apparecem outrofim Abreti , a:i)iia Citado, veltigios de edihcios Komanos , e alii perto exiltem ainda covas profundas , e largas , que dizem eraó das minas de prata , e ouro , que os Romanos alli fabri- cavaó. E na verdade da opulência das minas, que exifliaó neflas partes , entendo procedia i grande co- pia de Povoa^oens Romanas , que havia por eftas ví- íinhancas , e nos territórios , que lhe ficaó próximos , porque a ambição fazia concorrer para alli os Povos , como vemos , que fuccede commummente nas ter- ras , que produzem prata , ou ouro.

^ ... r 802 No Lugar acima dito dos Lagares, ou per- Thefouro que alli fe J j j j l t í r 1

achou. to delle , na propriedade de hum Lavrador , le acha-

rão no anno de 1721* grandiííima copia de moedas Thomé ãeTa-vora e j^omanas de diveríos Emperadores, além de mais de vinte e tantos marcos delias , que o lobredito Lavra- dor pouco antes tinha achado, e vendido para fe fundirem , o que he argumento , de que as ruinas aci- ma ditas eraó obra dos Romanos. R.was Kornafiasem S04 Junto ao Lugar de Vilharandello , tres Ic Fiibandardlo. rroas de Chavcs , fito na montanha , fe vem ruinas de Abren, acima citado. Povoâçao grande , a quc vulgarmente cnamao a Gv/-i

dade,

Livro IIL Cap, V. 4^5

dale ; dizem os moradores da terra, cjiie Fora habita- rão de Mouros; porém Thomé de Távora e Abreu, na Relac^aó, que mandou à Academia Real diz , que , a obra dos muros inculca íèr fabrica dos Romano? , o que fe confirma com a noticia de ter o meírao Thomé de Távora e Abreu encontrado no caminho à entrada do fobredito Lugar de Vilharandello , hiUTi padrão Romano , dedicado ao Emperador Macrino, que vay referido no cap. V. do Livro antecedente.

80^ Perto do Lugar de Villasboas , Icgoa e meya Qutm emFilU;hak de Chaves , em hum alto , exiftem ruinas de Fortale- za , e Povoa(^a5 ; e que foíTe obra de Romanos, indica o terfe alli achaco ha vinte e cres annos grande co- pia de moedas Romanas.

S06 Em Vih'anova do Monte, limite da ribeira q^^^,^, niUnoT^^ de Santiago , a quatro legoas de Chaves , exiftem as doMonte, ruinas de huma populofa Cidade , porque ao que íe \ê, paíTava de tres mil paíTos a fua circunvalacaôj tem muralha , e contra-m.uralha , com feu foíío entre hu- ma , e outra. Deftas ruinas a outras , que fícaó no Lugar de Lama de Ouriço , de que logo fallaremos , corre huma corda de montanhas , e nefta em diveríos íitios íe vem humas cafas, ou cavernas no baixo da montanha , algumas obradas em penhafcos , de tai /orte , que parte parece produccaó da natureza , e parte do artificio , outras íaó compoflas de argamaca, ' e rochedos : naó faõ muito grandes. A grandeza da Povoarão bafta para indicio de fer obra Romana. As grutas , ou cavernas aberras , e fabricadas entre os penhafcos , bem poderiaó fcrvir ; ou a alguma fuperf-

Outras no Lugar Citralha,

45? 6 Ademorias do Jrcehijpado de ^raga.

ti^aó, ou de abrigo aos que trabalhavaó nas minas ^ pofto que naó acho mcn^aó exiftiaó alli veftigios deU o las.

liuitm Ronuífids em Soy Na5 muito para a parte do Sul , em diftan- Zíbras^ef^aUiecgoa. ^ia de quatro legoas de Chaves , adiante do Lugar de Zebras , e Valdeegoa , no íitio a que chamaó Cabeça do Seixo j em huma terra chamada Santarém , fe vem ruinas de huma Povoarão grande , que tem huma mi- lha de circuito, e entre ellas apparece ainda levanta- do hum arco , e huma torre com grandes finaes de edifícios íumptuoíos , e por iíío reputamos ferem aquellas ruinas de Romanos.

808 No Lugar da Curalha , huma leiloa de Cha- ves , eítaõ ruinas de Povoacaó, com muralhas , e den- tro alicerfes de caías , e edifícios , a que vulgarmente chamaó o Crafio da Curalha : dizem , que foy Povoa- ção de Mouros. A efte Crafto , ou Caílello accref- centaó , vay ter huma gruta , e eftrada fubterranea , larga , que atéqui ninguém íe atreveo a penetrar. A qual gruta fica da outra parte do rio Tâmega , no Lu- gar chamado Bobeda , e a tiro de piftola começa a defcer para baixo , enterrandofe por hum monte , que cahe fobre o rio 1 amega ; de forte , que para ir fahir ao Crafto, acima mencionado, he precito, que pe- netre por baixo do fobredito rio , que he caudalofo , e corre alli entre penhafcos , razaó , porque parece impoííivel o que fe refere ; mas fe he aííim , a obra íem duvida he notável : e eu pofto que naõ tenha motivo para a regular como Romana , porque , como diííe , acéi^ui com o receyo do perigo todos fe el-

CLifaraS

Livro III. Cap,V. 45^7

cufaraõ de a inquirir , e penetrar 5 com tudo entendo naõ fer obra de Godos , nem de Mouros , pelas ra- zoens , que em outra parte apontey , mas obra Ro- mana , e alguma das concavidades , ou minas com que cortarão os montes deita Província.

809 Entre huma montanha chamada a Cota de outras em Cota de Mayros , que pertence ao termo de Monforte , e o ^^rax. Lugar de Villafrade , que pertence ao de Chaves , e , , , _

, t n 11 Ir» Thome de Ta-vora e

muy perto delle; exiítem ruínas de huma grande Po- Abreu, acinu audo, voa^aó , de que ainda apparece grande parte dos mu- ros levantados , e dentro ahcerles de caías , cubertos po'^ém de mato, e arvoredo, que impedirão averi- guaríe , fe por venru/a haveria alh alguma ínfcripcaó Romana j perguntados porém os homens mais velhos daquellas viíinhanc^as , pelas noticias das íobreditas ruinas , fe dividirão em pareceres, affirmando , que a voz commum de feus antepaíTados , dizia ter alli íido huma grande Cidade de Romanos , e dizendo outros , que de Mouros ; e na verdade huma , e outra coufa podia fer; porém Thomé dc Távora de Abreu, que fez a íobredita averiguacaó , nas Noticias , que fobre efte particular remetteo à Academia , inclinale muito , a que a fabrica era obra de Romanos , em razaó de fe ver , que a pedraria da muralha toda eftá muy bem lavrada , unida , forte , e com boa forma , o que elle diz níió cofturriâraõ naquella Pi ovincia ufar os Mouros nas fabricas , que fizeraó. Ao que eu ac- crefcenta o que diíTe , que os Mouros poíTuiraõ pouco tempo aquella Província , para fe entreterem a edificar Povoações grandes , e cuftoías. Como quer Tom. II. F que

45^ 2 Ademorias do Ãrcehijpado de "Braga,

c]ue feja , às fobreditas ruinas , ou Cidade arruinada , chamaó os moradores daquelle território a Troya , nome íem duvida impoílo por peíToa menos ruftica do que promettiao aquelles montes, e que inculca foy illuílre em algum tempo aquella Povoarão. Pajjaô-fe em fiíencio ^lo Outras mais ruinas , que parecem ier do outiai ruínas Romanas, tempo dos Romanos , íe achaò no termo da Villa de Chaves, que paííamos em íilencio, por naõ conte- rem em fi coufa notável , e poderá haver outras , que as contenhaó , que nos naõ chegarão à noticia , por- que as que tivemos do termo de Chaves , fe devem unicamente à diligencia de Thomé de Távora e Abreu , Secretario do Exercito da Província de Traz os Montes , o qual me efcreveo , que em razaó das occupacoens do feu cargo naò poderá examinar mui- ta parte do termo daquella Villa. Poros, ou lagos chama- ^ ^ ' ^nf^e O limite do Lugar de Ardoens, Con- áos frutas. íelho de Chaves , e entre o limite do Lugar de No-

gueira , e Sapellos , do Coníelho de Montealeare , eí^

Onrpo deUranopoUs,^ " , ^ , j t: n

im Noticias do Arce- "'■'^^'5 po(^os , chamados trcitas , entre eites elta bifpaáo de Bra^a, na hum , a que naó achaó fundo. Dizem , que entrando

deícrips^aõ da effrada ni i i- i " jj-rr

de Chaves f foi. n a, rjelie dous homens búzios, acharão a agua de dilie- rentes calidades, em cima quente, no meyo modera- da, e mais abaixo fummamente fria. Também fe conta , que algumas vezes le pefcaraõ alli trutas j o certo he , que no inverno mana delle hum pequeno rego de agua. Tem dentro em íi huma pouca de ter- ra , a modo de infua , levantada , e defcuberta quaíl duas varas íobre a fiiperficie da agua ; e o âmbito de todo eíie poco , ou lagoa íerá de meyo quarto de le-

goa.

Livro III. Cap, V. ^99

goa. Eílas , que hoje faó lagoas , eraõ no tempo dos Romanos minas de ouro, que elles abriraò, e donde tiraraó grandes riquezas j e na vida de Manoel Ma- chado de Azevedo , Senhor de Entre Homem e Ca- vado , eícrita pelo Marquez de Montebello Felix Ma- chado da Sylva e Caftro , relatando como o Cardeal Infante D. Henrique , em companhia de feus dous irmãos o Infante D. Fernando , e D. Luiz , paíTara a Caftro, a bautizar hum filho do fobredito Manoel Machado de Azevedo, no cap. 6. pag. 62. tem eftas palavras, fegundo as acho citadas nas Noticias , que de Braga remetteo o Illuílriiíimo Bifpo de Uranopo- lis : ^ara efte Lmce mando ha^er Jres collares de oro muy curiofos , facado de Us jnhias a que llaman las Fvettcts , que €71 ti erra de 'Barrofo ay entre los Lugares de GpioenSj y Àrdoms , que fon dei mayorajgo de Caflro ; y prefentan- do Dona Juana de Syha a cada uno de los Infantes wi Collar dejios , y distendo ellos , que aquello era mas enrU quecerlos , que regaíarlos , re/pondiò , que ny era lo uno , ny lo otro iftno querer fu marido , que las minas ,. que en jus princípios haVian Jtdo de los Otomanos , y de prefente fe hallaVan en ti erras de aquella Cafa , que fus Alte:^as ye- nian a honrar , Ics pagajfen tributo como a ^rincepes de aquel ^yno, Son aquellas minas unas lagunas obradas , mas por ambicion dei oro , que por manos de la naturale^i'j es capa:^la mayor por fu projundidnd de nadar en dia una nao de la Índia Oriental , y de fia corre en cl Inyierno un pequeno arroyelo :::::: En el ano de mH feijcentos treiíi' ta y ocho nos concediò Su Magcfiad una TroVifion con fa- cultad para beneficiar estas minas por tiempo de 'cimo anos,

F ii <sc.

5 ^ ^ Memorias do Arcehifpado de ^raga,

<src. Do que fica diro fe , naó , que as lagoas acima mencionadas íaó obra de Romanos , mas cam- bem , que muitas das que exiftem nos arrabaldes , ou arredores de Chaves , de que daremos relação na Geografia moderna , fem duvida foraò minas , que fe abriraó para a extracção do ouro, e prata de que abundavao aqiiellas terras. ohra nomyiá m Por- 8 1 2 Perto da Portella de Orfeira , defviado da tdia da Orjara. eílrada para a parte do Sul , a pouca diftancia fe achaó lifpo de VrampoUsy vettigios de huma levada de agua , que principiava no admacitadoj foi 17,0. f^tio chamado Bobadella, e paíTando pelo Lugar an- tigo de Payo Mantella , entrava no de Meixiede , que confina com Galliza , e dalli vinha por huma várzea, chamada a Campina, bufcar o valle de Chaves, ea tradií^aò daquellas gentes tem , que aquella obra fe fez ao mefmo tempo , que a Ponte de Chaves , que foy obra do Emperador Trajano , fegundo deixamos averiguado.

C A P I T U L O VI.

Dos yc^iglos y e ruínas ^manas , que fe achao na Villa de Monte alegre , e feu termo,

ycft\^m Romm m ^NJ ^ Caílello da Villa de Montealegre

Monteakgre. i ^ íç vem quatro torres quadradas , e de

Bif^odeUrmopoVn, P^^'^ lavrada, com grande primor , e arte. Deftas ' áciim citado, foi 11^. torres a principal , que he aliiílnna , dizem as Noti- cias , que vieraó de Braga , que fe preíume fer obra

dos

Livro III Cap. VI 5 o r

dos Romanos j e outroíim hum poço notável , que ha no mefmo Caftello. Eu deixo a defcripçaó de huma, e ourra coufa para a Geografia moderna, tanto por- que alli havemos de deícrever as de mais torres , e feria improporçaó defcrevermos agora huma, e de- pois as outras , fendo todas porçaó do mefmo Caftel- Jo ; como porque para aquella prefumpçaÓ naÓ fe allegâ fundamento efficaz , pofto que a fabrica do po- ço pela grandeza da obra fe pode reputar Romana.

814 No ficio chamado a Ciada , a tres tiros de , r , .

efpingarda de hum Lugar chamado osCafaes, que - me parece fer do termo de Montealegre , eftaó hunnas concavidades , que vaõ debuxadas na figura , que fe aponta. ° ^

JvJÍm.

7abnm Ko.nc/ia

no Jítií.'' d-a Cinda .

5 o 2 Meynorias do Arcehijpado de 'Braga,

Bifpo de Ur>iMOj)oiis y Efta concavidade he na forma feguinre. Primeira- gcèna citado, foLiio» ^ente eíle primeiro rifco he huma parede de pedra de cantaria , toda em redondo , com moílras de fua porta , e todo o campo branco , he ao modo de cor- redor. O fegundo rifco he outra parede da mefma forte , que a primeira. Todo o campo branco dentro do fegundo riíco he lageado de pedra de cantaria , e fobre eíle pavimento lageado eftaõ levantadas pyra- mides de pedra lavrada de tres , ou quatro palmos de alto cada huma , que faó os pontos pretos , que va5 no rifco , nas quaes pyramides eftaó metidos ganchos de ferro. Sobre eílas pyramides vay fechando huma abobeda de pedra , e nos quatro ângulos defta vao crefcendo para cima juntamente com as paredes qua- tro chemines , que íaó os rifcos , que eftaó nos ditos íingulos , e por baixo da dita abebeda , e pyramides , fe vem veíligios de que fe fazia lume. Por cima da dita abobeda eftá ao modo de huma fala , toda ladri- lhada de tijolos grandes , aííentados em cal , e as pa- redes muito fortes de cal , e pedra , e no ultimo de tudo moílra tinha o teólo de outra abobeda , e daqui íe tem levado muita pedra para a Igreja do Lugar de Gralhas , termo de Montealegre , que fica perto. EíU a fobredita concavidade fummergida debaixo da ter- ra mais de duas braças , e por cima he hum outeiro de terra de centeyo , razaõ , porque fe naó pode exa- - minar. E o que fica relatado fe íabe , porque no an-

no de 1704. andando hum homem a lavrar, e outro a arrancar pedra , levantarão com os ferros do monce liumas pedras , e íe abrio hum buraco ^ e indo o Juiz

Livro IIL Cap. VL 503

de Fora Roberto Car Ribeiro , e muita gente com luzes, defceraó a examinar o que fica dito. O de mais íe naó fabe , por ficar muito debaixo da terra , e o impedir o outeiro. Que efta obra feja fabrica de Ro- nrjanos , me parece tem pouca duvida , aííim pela grandeza delia , e feitio , e lavores , como porque conjunto a efte fitio ficava a Cidade de Caladuno.

8 1 5 Perto defte fitio da Ciada , que fica a três ti- Ruim mingar ãe ros de mofquete do Lugar de Gralhas , que lhe fica ao Nafcente , íe achaÓ veftigios de muro velho que ^.^^^ ^eUrampoUr, cercava o monte chamado Campellos , daqui pana ao acima citado , foi, 1 ji; fitio chamado Bobadella , e dalli vay acabar no fitio chamado Payomantella. Tem efte muro de circinto meya legoa. Aííim deícrevem eftas ruinas as Noti- cias , que Te mandarão de Braga 5 a Rela(^a5 porém de Thomé de Távora e Abreu , que também me deu conta delias, por carta íua , que tenho em meu poder, àquelles muros cinco milhas de circuito , e diz ha- via alli muitas caías de abobeda , e huma quafi enter- rada , o que procede fem duvida das concavidades , que acima delcrevemos , que ficaõ pegadas a efte fi- tio. Como quer que fcja , aqui houve Povoa(^a5 Ro- mana , como bem fe moftra da grandeza das ruinas , e concavidades mencionadas. O que a meu ver íe confirma oucrofim com hum padraó , que ainda hoje exifte no Lugar de Gralhas , e eftá fervindo de haftc a huma Cruz, o qual padrão he chato, e tem de comprido fete palmos e meyo , e de largo dous pal- mos e meyo , nas pontas tem feus lavores , no meyo he lizo , e em huma das faces cem no meyo hum le- treiro

504 Memorias do Ãrcebifpado de 'Braga,

treiro , que íe naó pode ler , mas ainda fe lhe conhe- cem as letras feguintes :

NOHO EILU qNI Eíle padraó dizem eftava collocado em hum campo, a que chamaõ ainda do Padraó , e accrefcencaó , que o levantara, e puzera no diro campo o Conde Dom Henrique , em razaó de huma batalha , que alli ga- nhara aos Mouros ; porém as letras do padraó conven- cem naó fer elle do tempo do íobredico Conde , em que em Hefpanha íe naó uíavaó caracteres Romanos, mas Góticos ; e como o ufo deites tiveíTe vigor em Portugal até o tempo delRey D. Joaó o III. fegue-fe, qué ou o padraó foy pofto depois defte Rey , ou que foy do tempo dos Romanos : do tempo delRey D. Joaó o llí. naó he , porque eftaó as letras muy apaga- das , e comidas para ferem tao modernas , donde fe íegue , que a fua Infcrip^aó foy poíla no tempo , que os Romanos ainda dominavaó em Hefpanha ; e naó fendo elle , nem pedra íepulchral , nem outrofim pa- draó de caminho , como fe colhe da fua figura , cer- to he , que a Inícripc^aó pertencia a alguma obra , ou edificio Romano, o que moftra havia Povoação, e Cidade fua por alli perto do campo do padraó donde primeiro exiftio. He verdade , que na Relaçaó , e Koticias , que vieraó de Braga , naó fe declara , que diftancia ha do Lugar de Gralhas a eíle campo do pa- draó.

..f. p S 5 6 Huma legoa do Lug;ar de Penedones , que ffuwas no moKte de S. H t; h 1 v^, t n7

Kmaó. parece ler termo da Villa cie Monteaiegre, eita a

Cruz chamada de Leyranco, e para a parte do Sul ,

delviauo

Livro IIL Cap. VL 505

defviado da eílrada hum quarco de legoa , e quaíi ^'\fp^ deUrannpcUs ^ confinando com o no Regabao,eIta num monte im- ^ ,^5, v v j. minente, chamado o Caftello de S. Romaó , e na raiz do monte pegado a elle, para a parte do Nafcente , e Sul eftaó humas ruinas antigas , que moftraó foy Lu- gar grande, porque tem abertas ao modo de cinco, ou leis ruas , e aHcerfes de caías de pedra feitas ao pi- cão , e algumas quadradas.

8 1 7 Deftas ruinas hia ter huma rua a hum muro Prof?gue-fe a defcrip^^ feito de pedra tofca , que teria de largo tres palmos , í'**'^'** ^^^"^^^ o qual muro principiava da parte do Naícente , em hum penhafco levantado , e vinha para a parte do Sul dar em hum rochedo também eminente, e no meyo defte muro eftavaó ao modo de portas grandes , por onde fe entrava para huma porta , ou campo , que te- ria em circuito vinte bra(^as , pelo meyo do qual hia huma eftrada até junto dos fegundos muros , e Fechan- do o primeiro para a parte do Poente no Cadello. Defta parte parece tinha porta efte fegundo muro, o qual eflava fundado em lages firmes , pela qual fe en- trava para o Caílello , feito de pedra quadrada , e bem lavrada ao picaó, que rodeando o dito monte, ^ vinha fechar em íere , ou oito rochedos , que ferviaõ como de torres , ou luas , e alguns picados na fuperfi- cie , que parece ferviaó de guricas para as vigias 5 hum dos taes rochedos eílá para a parte do Naícente , he de feitio quadrado , principia naó muy deíviad > da raiz do monte, e vay íobindo taó direito, quadrado, e lavrado , como íe fora huma tone bem feita, e tem de altura mais de quarenta palmos , e de groQura de Toni.ll, G > - cada

^o6 Memorias do Arceblfpado de Tíragã,

cada bania oito , ou dez ; unido com elle , eflá hum pedaço de muro de doze palmos de largura , e dizem, que para eíla parte eftá metida no muro huma pedra, (]ue tem a effigie de huma bezerra, a qual porém naó vio a peíToa , que andou obfervando eftes lugares pa- ra remetter efta Rela^aó. Comm-fe 4 dejcrip- ^ I ^ Dentro defte fegundo muro, para a parte do ia5. Sul , fazia huma area , ou terreiro , que teria vinte

paíTos em circuito ; defte fobindo mais acima huma bra^a , eftaó na fuperfície do Caftello , ou monte deus penedos levantados , que fervem de torrióes , e nelles . aberta huma efcada , e junto fe vem humas ruinas de pedra lavrada , e pelo meyo delias fragmentos de ti- jolos , talhas , e outros vaíbs , pedras lavradas , c ameyas , que parecem de torre ; e nefta direitura para a parte de Poente eftá huma ciíterna , ou po^o de pe- dra tofca , e quadrado , e terá de vaõ cincoenta pal- mos , e entupido de terra ; e para a parte do Norte faz hum plaino a modo de pafTeyo , e deíla parte naó tem mais , que o fegundo muro , e fica imminente ao pavimento do monte quarenta bra<^as. Tem levado defte fítio muita quantidade de pedra. DwvUa-re ferem do 819 Eftas ruinas , que fícaó defcriptas , naõ me tempo dos Romanos, atrevo a regulallas por obra Romana , fuppoíla a cali- dade , e circunftancias da obra , fegundo fica explica- da , mas nem outroíim me atrevo a negallo , porque as circunftancias da pedra, em que fe acha efculpida a bezerra , e as ruinas de tanta pedra lavrada , e peda- ços de talhas, &c. daõ alguns indicios daquelles tempos* E tenho para mim , que efta obra devia co-

meçarfe

Ztvro IIL Cap, VL 507

tnccarfe no tempo , cm aue os Barbares invadirão as Helpanhas , e cjue eík devia íer hum dos Caftellos, cm que os naturaes do Paiz , e Romanos fe recolhe- rão , e defenderão até o tempo delRey Remiímundo a íua liberdade , e a íoftiveraó de alguma forte ; e no tempo dos Mouros devia também de occuparfe, e defenderíe , porque na verdade o licio delle parece in- conquiftavel.

820 Outras muitas ruínas antigas exiftem nefte Peiir4, einfcrípçaõ termo, que bem poderáó íer do tempo dos Romanos, i*"" Cambdu. delias daremos alguma noticia na Geografia moder- .

^ n r 'II- I WP'> Uranopolu

na , luppolto le nos nao declarao nas Kelaçoens , que actmAcmlo,jui,ii delias temos, as circunílancias, porque talvez íe po- deria vir no conhecimento do tempo em que foraò edificadas. Por ora dizemos , que em Friaens, ter- mo de Montealegre, exifte a(5lualmente huma pedta ftpulchral, que foy achada no íitio, a que chamaò Cambella , e hoje quebrada em duas partes , ferve dc de^/ao a huma efcada , pela qual fe entra para huma cala de Joaó Pereira , morador no dito Lugar de Friaens , e nefta pedra , que tem oito palmos de com- prido , e dous e meyo de largo , íe efculpido hum loíto , e abaixo hum como efcudo , e logo a Inícrip- ^aó feguince :

CAMALUS MIBOIS LIM. lUS. SLIVAIR H. S. JUL Quer dizer : Camalo Mlhols LI mio , de Idade de quarert' ta e [eis amios , ja:^aqiú/epHltado, A dic<^aó SLIVAIR

G ii naò

5 o 8 Memorias do Jrcehifpãdo de "Braga.

naó percebo o que fignifíca. Parece Ter nome pátrio^ porém naõ fey , que houveííe Cidade defte nome , ou Província. E fenaó he nome pátrio , fera o nome Li- mio, e diremos, que além dos Povos Limicos , havia outros , a que chamavaõ Limios , e fícavaó neftas vi- íinhan^as em terras de Caftella , onde hoje chamaò as Limias , por onde corre o rio Lima.

CAPITULO VIL

De outros "Veftlgtos de minas , e ãnttguidades Romanas , íiue existem , efe [abem em dher/as partes do Àrcebljpado de 'Braga,

Falta ttecumíMe dos ^21 T T E notavel a incuria , e defcuido dos liojjos Púriugus\a, JTa. noíTos Porcuguezes em procurar , e

fazer manifeRas ao publico as antiguidades do feii Paiz , e taõ grande , que nem ainda compellidos da grandeza , e liberalidade do noíTo Augufto Monarcha, tem dado íatisfa(^aó às ordens , que fe mandarão às Camaras , Mjniílros Ecclefiaílicos , e feculares de ro- do o Reyno, para effeito de manifeíkrem à Acade- mia Real todas as que exiíliíTem , e de que tiveíTem noticia. Antes me confia he tal a malicia àc alguns rufticos, que vendo, que fe procurarão as pedras , e Infcripc^oens Romanas, que exiílem , com ordem de Juftií^a, imaginando, que iíto fe faz para achar the- fouros , encobrem quanto podem a noticia das taes pedras , com a ambic^aó de ferem elles os que íe apro- veitem das imaginadas riquezas.

Daqui

Livro III. Cap, VIL 505?

822 Daqui procede o naó fe ter dado conca Òl saô poucat « mthiai Academia Real de infinitas antiguidades, cjue exiftem ^^y^**^ ^ AwkmU no Arcebiípado de Braga , e juntamente de os Minif- ' tros , a quem fe paílaraó as ordens , procederem na execu(^aó delias com notória , e repreheníivel negli- gencia. De tal forte , que fe naó fora o cuidado , tra- balho , e difpendio , que teve nefte particular o Illuf- triíTimo Biípo de Uranopolis D. Luiz Alvares de Fi- gueiredo , e também o Corregedor de Guimaraens Francifco Xavier da Serra , e algumas peíToas mais , que vao nomeadas nefta Obra , ou ficariaõ inúteis todas as difpoíicoens premeditadas para a empreza , que , fe pertende , ou íeria neceflario com rigorofo exemplo caíligar a enercia dos que fe defcuidaraó da fi^a obrigaí^aõ. Pelo que apenas relatamos aqui as an- tiguidades Romanas , e veftigios , que delias exiítem enri toda a Comarca de Vianna , na Ouvedpria de Bar- cellos , e Valencia , de que íd diremos o pouco , que nos veyo à noticia.

82^ Junto à ponte de Anhel , que fica íobre o Befmpca^ âas nmm ^ rio Neiva, fe levanta com baftante altura hum monte, YouTaí^"^ ^'^ "'^"^^ a quem os Povos vifinhos chamaõ Loufado; no mais alco delle efteve antigamente huma Povoacaó, que os BifpodeUrarwpolh nnoradores daquella Freguefia chamaÓ Cidade gran- g;;,^*^;'^':/^ de , dos vefíigios^ que ainda fe coníervaô, pofto que M^- muito apagados , por lhe tirarem a pedra.

824 Fortifica vao a eíla Cidade dous muros, comitm<t, que ainda íe divifaó veíligios, e finaes da Tua ricua^aó> o primeiro terá mais de mil e quinhentos paíTos em voka i o íegundo ficava com algum eíix^co mais den-

tro,

5 IO Memorias do Jrcehijpado de ^raga.

tro , de forte , c]ue entre hum , e outro fe metia bat tante largura.

Documento que trata 825 Faz mencjaÓ defla Cidade hum documento, delias, qne exifte em Braga, que contém a divifaó , que fe

fez de Entre Douro e Minho, em doze Condados, no tempo delRey D. Fernando o Magno , por eftas pa- lavras: radices montis Tandi, <^ Lupatis ad trlgl" dam f ontem juxta Gvitatetn magnam , qu<x ibi dejlru^a jacet à Mãuris.

Díevída,erepoJla, ^ poílo que cu neíle documento tenha aU

gumas duvidas , que relatarey no Icgundo remo delfe primeiro Titulo , onde no Appendice irá lanhado o tal documento, com tudo , como no fobredito mon- te actualmente exiftaò os veíligios acima dicos , a boa Critica pede o naõ regulemos por errado neíla parte. Por quem foy eMfíCAàa 827 Qiianto a regularmos aquella Povoação por ãCuiade, cuJms minai q]^^^ Romanos , eu me naó atrevo a tanto ,

com OS linaes , que hcao apontados. Porem como o documento, feito no tempo dei Rey D. Fernando o Magno, diz, que alli fora huma Cidade grande, e que os Mouros a deftruiraó , bem íe deixa ver , que a tal Cidade, ou foy fundarão de Romanos, ou Godos, ou Suevos, e mais me inclino, a que íoíTe obra dos primeiros, porque as na^oens Barbaras poucas Cida- des edificarão de novo em Helpanha , de que tenha- mos noticia , e pela mayor parce continuarão a habi- tar nas antigas dos Romanos, pofto que com muita diverfa forma , e menos policia. omo^ -vedigm ࣠Entre 08 annos de mil e feifcentos e oitenta ngiúàiuUs, e quatro, e o oicenta e cinco , fendt> Ouvidor de Bir-

cellos

Livro III. Qp. VIL 511

cellos Francifco Mendes Galvsó , que acTbiialmenre he Procurador da Coroa , e Defembargador do Pac^o, junto à Villa de Efpofende, em hum campo, no meyo do qual eílava hum montinho de terra, dos a que vul- garmente naquella Província chamaõ Mamoas , e fo- bre elle plantado hum pinheiro , appareceo hum dia efcavado, e derrubado , e fe achou debaixo huma ca- íínha fabricada de quatro pedras grandes de féis , ou oito palmos , as quaes eílavaõ todas debuxadas com vários cara(5leres , e figuras , de que naó lembra a tór- ma , por fe naó tomar tento niíTo. Por cima das taes quatro pedras eftava outra , que fervia de tedo. De- baixo naó tinha pedra , mas era terra barrenta , e com alguns carvoens. E porque fe entendeo , que a fobre- dita terra, e pinheiro foraó efcavados de noite para effeito de roubar algum thefouro , que alli eftiveífe , fe deu parte ao Ouvidor de Barcellos, o qual foy cem outro Miniftro, e do que acharaó , deraó avifo ao Conielho da Fazenda.

820 Efta noticia me deu o fobredito Defembar- Juít^ âo jíatkoi'* gador do Pa^o Francifco Mendes Galvaõ. E vindo a fazer juizo delia , eu entendo, que as fobreditas pedras deviaó fer algumas fepulturas Romanas , que muitas vezes além dos caraderes tinhaó debuxadas diverías figuras. E o eftarem formando aquella cafinha , devia fer para choupanas , e abrigo de alguns paftores , 011 trabalhadores no tempo de Mouros , Godos , ou dos tempos mais modernos. Pelo menos nas Noticias , que tenho em meu poder , mandadas pela Camara de Villa-Real à Academia , encontro feito íemelhante

juizo

t

512 Memorias do Ãrcebifpado de Bragâ»

juizo em íemelhantes obras j porque no titulo da Fre- guefia de Santiago de Mondroens , diz aíTim : No alto defta Freguefia para d parte do Toente , encojlado ao Sul, eflaÕ huns campos de terra lavradia , junto ao rio Sordo , pelo meyo dos quaes Vaya eítrada ^al para a ponte do me/mo , chamada %ahaens y e a hum , e outro lado da ejlra» da fe achao em Varias partes no meyo dos campos montes de terra ynais empinados , e no cimo delles humas cabanas fa* hricadas de lages metidas na terra , e pojlas a plumo em gyro redondo chegadas humas às outras , e no cimo de todas huma lage redonda , que as comprehende j e nos tempos ati- tigos toda a dita pedraria eUaVa cuberta de torrão com muita groffura , e he antiga tradição, que era obra de MoH" ros f que lhe ferVta de recolhimuito naqudles campos, Antiguidades Romms 850 No Doutor joaó de Barros , nas Anciguida- tmFA'VAyQs. des de Entre Douro e Minho, no capitulo em que

trata de Brac^a , acho noticia de huma Povoa(^aó Ro- aSre^^S^^^ ^^^^ '^'^'^ Montes , por eftas palavras : Ha tiho, cap.XIJ.pag' Comarca deTra:^ os Montes , de:^dfete legoas de 'Braga ^ efid huma Villa , a que chamaÕ FaVayos , a qual he muy antiga do tempo dos ^maos , e fegundo fe "vè por letrei- ros Velhos , parece que alguns FlaVios a edificarão , na qual ja acharão moedas <B^manas muy antigas»

»»5

CAPI-

Lhro 111. Qp, VIU. 513

CAPITULO viir.

Do ufo dos f Arnais , e Infíripcoens %om.inds a ref' peito i/^ Otogrdfa auttgcí , e da intelUgenda das tdes Injaipcoais , c juas circunjianaas.

8 3 1 S Romanos para lembran(^a cie algu- rnfcripçôes cajlumédui

V>/ nias obras , coftumavaò gravar em <^oi liomam» pedras letreiros, em cjue fe dava íuccintamente noti- cia das taes ac(^oens, e fucceííos. Ifto uíaraó também no território de Braga, e Provincia de Galliza. Don- de vem , cjue ainda hoje fe confervaó nella diverfas pedras com fcmelhantes Infciipc^óes. Outras íabemos íe íonfervavaó nos feculos anteriores , e próximos , as cjiiaes fe perderão , e cjuebraraó por diverlos acciden- tes. C5eftes Padrões íe colligem muitas , e importan- tes noticias para a Geografia antiga , que efcrevem.os , como he a diílancia das terras , os nomes , os edifí- cios , c as Familias , que as havitavaó , com outras muitas particularidades. E aíTím he precifo , que fuc- cintamente declaremos algumas couías , que íe devem prefupppor para a intelligencia das fobreditas Infcrip- çoens.

8 p Ainda , pois , que as pedras de que falíamos, suáàiVifaô» contem diverílílimos fucceíTos , as leduziremos com Ambrofio de Morales a quatro claíTes , a íaher , Me- ji^oralts rgs Antis^i' didas de caminho, Sepulturas , Aras , ou Dedicaçoens '^■^^^^^ Heipa>-ha,

11 r r c j 1 Titulo Piedraà ami-

oe alguma coula , que le razia em reverencia de algu- guaj 1 1, Tom. II. H ma

514 Menmr.as dv Ãrcehifp.ic!o de %\igã,

ma Divindade , Emperador , ou outra peííoa. Medi- das de caminho faò aquellas pedras, cuja ínícripí^aõ fervia de íinalar as diftancias , ou termos , e divifoens das terras. Sepulturas faó aquellas, cuja Inícripçaó de- nota , que debaixo delia eftava alguém fepultado , ou o havia de eftar. Aras eraó as pedras , que punhao por devoc^aó, ou reverencia, que tinhaó a algum Deos, ou por voto , que lhetiveííem feito, ou por outro refpeito femelhante de religião. Dedicarão eraó os arcos triunfaes, e outras Infcrip^es femelhantes, ou quando alguém collocava alguma Eftatua a algum Deos , ou Emperador , ou amigo , ou parente ^ ou quando havendofe lavrado algum edifício fumptUGÍo, íe celebrava a grandeza , e proveito delle , e íe faziá môtnoria dos que concribuiraó , ou outras coufas fe- f*ielhantes.

jibkstímras^ 8^^ Eftas Infcrip^ões algumas eftaõ efcritas por

extenfo , outras em aobrcviaturas ; as quaes Ía6 de di- verfa forte , porque muitas vezes huma letra fígnifíca huma palavra inteira , e tal letra fempre he a primei- ra da palavra , v. g. T. íígnifíca Terra, Outras vezes tem duas , ou tres , ou mais letras das palavras , que íígnificaó , e daqui procede , que a fua leitura he em- bara(^ada , e às vezes admitte muitos fentidos , e naó fe pode faber o certo. Também muitas vezes as taes Inferi p(^6es tem as letras erradas , porque como eraõ gravadas por homens ignorantes , em lugar de huma letra punhao outra, diminuiaó, e accrefcentavaó, fe- gundo verenws em muitas das que allegarmos neftas noílas Memorias,

Também

/

Livro ni. Ca^. Vin. 5 1 5

S^4 Tâmbem eftas InfcripGÓes , principalmente Tittúos qae nas Inf- as Medidas de caminho , quando fallavaÓ nas peíToas ^Sri?^^'' dos Emperadores , lhe davaó diveríos títulos , e toca- ví?ó commummente algumas circunftancias , c]ue ago- ra explicaremos , para cjue quando ncs quizermos va* ler da authoridade das íobredicas Infcrip^oens , íaiba- mos a fua iutelligcncia.

835 Primeiramente fe deve advertir, o ú- AâverteneU fohre etU tulo de Emperador íe acha nas taes Inferi p^óes pofto deEmpsradQu duas vezes , huma antes de íe dizer o nome do Em- perador, outra depois, com efta diferença , que an- tepofto, naó eftá numerado, porém pofpofto, vem numerado , v. g, Jo Bnperador Trajam Jugufto Felix Emperador tres ve:^es , úrc, O titulo pois de Empera- dor collocado antes do nome , denotava o poder , e dignidade dos que eraó , ou Emperadores , ou Col- kgas do Emperador , e tinhaõ o poder Tribunicio , e Império Proconfular , fegundo bem adverte Paggi , pa^i na Critica a So- vo anno cento e dezafete , numero doze, e íeguintes. roniojAnno 1 1/. num, O titulo de Emperador collocado depois do nome, denotava as vitorias , que tinha confeguido , e por iíTo commummente íe acha numerado, dizendo, Em- perador duas vezes, tres vezes, &c. e procedia ifto, porque quando confeguiaó alguma vitoria , os Solda- dos , ou os Povos o acclamavaó Emperador. Paggi , p^g^i ,çi,,^ acima allegado , no num. 14. pertende , que efle titu- lo íegunda vez collocado , e numerado, de Nerva em diante incluía algumas vezes naó o numero das vi- torias , mas também a acclamaçao dos Povos no dia em que recebia o império. Se acafo allegarmos neílas

H ii Memorias

Memorias do JrcehiJp4do de 'Braga,

Memorias Infcripçaò , para intelligencia da qual feja precifo decidir efta difíiculdade , o Faremos. D9 titulo ãsCefar, 8^6 Depois do titulo de Emperador , fe dava nas Inferi p^oens aos Emperadores o titulo de Cefar. Eíle titulo ao principio tinha íido cognonae da Familia de Julio Cefar. Depois paííou a fer dignidade^ e vinha a fer como huma elei^aó de futuro fucceíTor do Im- pério Romano ; porém he de advertir , que ainda que algum Emperador naó tiveíTe antes íído Cefar , de- pois de Emperador lhe davaó nas ínfcrip(^oens o tal titulo, como fe nas do Emperador Nerva , e nas de Septimio Severo, e outros. Nomnijne tiíut^ os 8^7 Ao titulo de Cefar fe feguia commi|immen- Empiradorcs^ ^ nome , OU nomes do Emperador j digo nome ,

ou nomes , porque muitos ufavaõ com o feu nome próprio o do nome do feu anteceíTor , e o antepunhaó, como vemos em muitas Inícrip(^oens de Trajano, cha- marem-lhe Nerva Trajano , em razaó de Trajano fer adoptado por N^^rva. Outras vezes naó antepunhaó, mas pofpunhaó o nome do anteceíTor. Outras depois do nome do Emperador o intitulavaó filho , neto, bif- neto dos Emperadores feus anteceíTcres , poílo que na realidade o naó foíTe , nem ainda por adopçaó , como vemos em algumas do Emperador Septimio Severo, Titíios ãrviffcs^m 8^8 Além difto fe lhe davaó diverfos titulos, tí^mim, comoAugufto, que também denotava o Império, e

outros, como Feliz, Pio,&c. e fe lhe davaó titulos demonftrativos das na^oens , que vencera , como Tar* thíco y Sarmatíco , &c. e commummente depois fe lhe dava o titulo de Pontífice Máximo,

Poncifícc

Lhro III. Cap. VIU 5 1 7

8^9 Ponrifíce Máximo entre os Romanos era dtie coufa era Pontifce luima dignidade , a que pertenciao as matérias concer- í^fj;^;,^;^^^ ^1;; nentes âs Tuas riiperfticoens, e falfos cultos j e como peradorss. era muito eftimada, c preeminente, a arrogaraó a íi os Emperadores , quando entrou na Republica Ro- inana o governo Monarchico. Porém como neftc houve tres diíferen^as , a primeira, em que o governa reíidia em hum , e pofto que tivelTe Collega , naõ era igual , nem tinha o titulo de Augufto , a qual for- ma de governo durou acé Marco Aurelio , fegundo nota Paeai no anno cento e feíTenta e hum , num. PagginaCrUkA a Fa- da lua Critica a Baronio. A legunda , em que o go- 5. verno diverfas vezes refídk) plenamente em dous Em- peradores , íem haver porém divifaó no império Ro- mano , a qual forma introduzio Marco Aurelio , fe- gundo o meímo Paggi acima citado. A terceira , em P^gg^ «iaw (à^^*^ que o Império Romano fe dividio em diverfos Em- peradores , como foy na renuncia , que fizerao Dio- cleciano , e Maximiano em Conftancio Chloro , e Galério Maximiano, ficando eftes ambos Emperado» res , mas cada hum com a feu domínio à pajrce. Na . primeira differen^a de governo Monarchico o titulo de Pontiíice Máximo íe dava ao Emperador , e naô aos Coilegas j eftes porém tinhaõ o ticuío de Poncifi- ces fem o epitheco de Máximo. Na fegunda difFeren» ^a,, ao principio o titulo de Pontífice Máximo fo íe dava ao Emperador mviis antigo até os tempos de Píj^ pienQ> e Balbino , em que fe deu a ambos ^ fe porém confervavaõ anribos o exercicio,. he duvida , que fe luõ pode decidir atéc^ui* Na terceira difFeren^a cada

Emperaica:

5 I 8 Memorias do Arcehtjpado de 'Braga.

Emperador tinha o nome, e o exercido de Pontífice Pa^gi aciiíut citado. Mâxinno. Tudo ifto he de Paggi, acima allegado, íobre o que agora naó difputamos , antes o íuppomos} fuccedendo com tudo alíegarmos Infcrip^oens , que encontre o que fica dito, o advertiremos. Sobre íe os Emperadores Chriftãos retiveraò,ou naó efte titulo de Pontiííces Máximos , ha controverfía entre os Cri- Pã^<!\iiaCrttiua'B<t- ticos. Paggi no anno trezentos e doze, no num. 19. e ro;;i<?, amo iiz.mm, feguinte , aíTenta , que naó j encontrando nós ínícrip- (jaó na noíTa Dioceíi , que pe(jâ a deciíaó deíla maté- ria, o faremos.

Vo poííer Trihufiicb , 840 Depois do titulo de Pontificc Maximo , fe- ^»e^tinh4ô os Empera- gi{i2L.ÍQ nas Infcripíjoens declarar commummente as vezes , que os Emperadores tinhaó gozado o poder dc Tribunos. Tribuno entre os Romanos era dignidade popular, mas de grandiílima auchoridade, pelo que a arrogarão também a fi os Emperadores ; mas como era propriamente da gente do Povo , e naó dos Patri- / cios , e Nobres , naó uíavaó do nome Tribuno , ou

Tribunado, mas uíavaó das palavras Poder Tribuni- cio, e aiíim declaravaó as Inlcrip^oens , que tinhaõ tido duas , ou tres , ou mais vezes o poder de Tribu- nos. O que também procedia de que como a digni- dade de Tribuno, antes de haver Emperadores, era annual, da mefma forte a confervavaó os Emperado- res , e fegundo os ^nnos , que haviaó exercitado o tal poder , aífim numera vaó as vezes , que o tinhaó go- zado. Donde vem , que efte titulo , e números fe ce- vem notar muito nas Infcrip(joens , porque fervem muito para regular a Chronologia. Tamoem he de

advertir.

Livro IIL Cap.VIIL 5157

advertir, que efte Poder Tribiinicio commnmmence, ainda que naó íempre^ o pArticipavaó os Emperado- res àquelles , que nomeavaó Gelares , e herdeiros no Império.

841 Também nas Infcript^oens de que tratamos, bo titnU i^eConfuJ, nela mavor parte fe faz mencaó dos Confulados , que nas ir.fcripioem fe tinhao exercitado os hmperaaores. Conluies antes

de haver Emperadores, eraó os que governavaó a Re- publica Romana 5 eraó dous, e o feu donúnio íó dura- va hum anno , e affim cada anno fe elegiaó novos Confules. Quando depois entrou o governo Monar- chico dos Emperadores, continuou a haver Confules, c muitas vezes era o Emperador hum delles ; e aílim muitas vezes vem numerados nas ínfcripçoens os taes Confulados , dizendo Conful duas vezes , tres vezes , ôcc. e fervem também muito as taes claufulas para re- gular a Chronologia , mas he de advertir , que o anno Confular tinha ponto fixo , porque começava o pri- meiro de Janeiro , e acabava no ultimo de Dezem- bro , o que naó era no poder Tribunicio , porque efte naó tinha ponto fixo , e comec^ava o feu anno no dia em que fuccedia confeguirem aquelle poder , o que he neceíTario obíèrvar para falvar muitas contrarieda- des , que aliás refultariaó do que referem as ínfcrip- çoens.

842 Também fedeve advertir, que havia tres Qíufitas firtes ds Cor^ géneros de Confules , a faber , os que entravaó a go- i"'"**"^'**? vernar no principio de Janeira Os que eraó eleitos ,

e entravaó a governar por morte , ou renuncia de al- gum dos Confules depois de principiado o anno , e

^20 Memorias do Ãrcehlfpado de "Braga.

a eítes chamavaó Confules Sufíeâ:os. Ultimamente os que eraó eleitos para Confules do anno fcguinte , porque a elei^aò íe fazia alguns mezes antes de aca- bar o anno , e a eftes chamavaó Confules Defignados, O Emperador Septimio Severo incroduzio de mais os Confules Honorários , fegundo nota Paggi , no anno quatrocentos e tres , num. 5. Titulo ííc Pdy ãa, Pa- ^4 5 Intitulaófe também commummente os Em-

peradores nas ínfcrip^oens Pays da Patria. Titula de Prcmfuh 844 O ultimo titulo , que commummente fe nas Inícrip^oens aos Emperadores, he o de P oconfui, Paggi fi4 Critica a Bí- que vinha a denotar o Império Procon^ular, Paggi no roHio, amo 1^7. num, ^^^^^ cento e quarenta e fete , num. 5. aíTenta , que ^* havia duas efpecies de Proconíulado , hum, que era

conílitutivo , e parte do Império Supremo dos Em- peradores , e efte antes de Marco Aurelio Emperador, íó fe dava aos Collegas do Império , e le deu a Nero íendo Cefar. Outro era Proconfulado , naó perpetuo, e dos particulares , e tinha dominio fora de Ro- ma, e fe dava muitas vezes aos que eraó puramente Ceíares , e em virtude do poder Tribunicio , e do primeiro poder Proconfular he que os Cefares vinhaõ a fer Collegas do Império , porque em quanto care- ciaó delles, eraó puramente Cefares , mas naó Colle- gas.

fr^aó A. íc expVmrm 845 Guardámos eíla explicarão , e obfervacoens tf.j íí ejks ítttíios, para efte lugar , porque ainda que acima deixemos copiadas muitas Infcrip<^oens Romanas , com tudo a dilatamos atéqui , porque como agora havemos de entrar a defcrever as Vias militares , que fahiaó de

Braga,

Livro

Braga , e eftas íe regulem pelos Padrões Romanos , a c]ue chamaõ medidas de caminho, nos pareceo, que efte era o lugar mais conveniente para efle diícurlo, pofto que o que nelle dizemos, íirva também para as Infcripí^óes , que ficaò referidas antecedentemente.

C A P I T U L O IX.

T>as Vias militares , que hãVia na Vloce/t de (Braga no tempo dos Romanos,

S4.6 If^ Nrre as obras publicas . que os Roma- , .

J j nos rabricarao por todo o leu Impe- „^i\\t4ns,

rio, buma da principaes foy a das cacadas, e eftra- das Reaes, a que commummente chamavaó Vias mi- litares , em razão de que por ellas marchavaó as mi- lícias. Eftas calinadas eílavaó fabricadas com toda a grandeza, cdiípendio; eraó largas, e muitas vezes para o commodo das marchas , e viandantes circula- vaó , e hiaó rodeando montes j outras rompiaó por entre penhaícos , e de quarto a quarto de legoa ti- nhaó nas ourelas , ou bordas, huma columna alta, e groffa , em que commummente eftava gravado o nu- mero das milhas , que monta vaó , contando defde o lugar onde principiava a eftrada , ou de algum lugar intermédio , mas populofo. Algumas vezes naó gra- vavaó na columna o numero das milhas , mas íó o nome do Emperador, que reedificara o caminho na- quella parte; e aííim parece , que algumas vezes fica- Tom.ll, 1 vao

52 2 Memorias do Jrcehlfpado de ^raga,

vaõ muitas columnas em hum mefmo íicio , quando tinha fido concertado por muitos Emperadores. Dei- ta forte os caminhantes fabiaó as legoas , que tinhaõ andado, e também as que lhe faltavaó para chegar ao lugar onde principiava a eílrada , ou onde hia pa- rar.

J)u-vid<t fohre regular ^47 HumA duvida com tudo fc me ofFerece nef- op^i^^ipío iias rias nú' ta matéria , que confeíTo naó íey refolver , e he, que correndo as Vias mi'itares fempre de huma Cidade infigne a outra também iníigne , por onde fe regula- vaó os Romanos para Fazerem huma Cidade princi- pio , e a outra fim da efírada j v. g. de Braga a Aftor- ga hiaò quatro Vias militares , e em todas as pedras, ou columnas , que exiftem neftas Vias militares , ex- cepto a que hia por Chaves , íe contaó as milhas , começando de Braga para Lugo , e Afiorga , de forte, que Braga vinha a fer o principio , e Aftorga , ou Lu- go o fim ; o que ignoro pois he , que motivo tinhaó para numerar aííim , e naó ao contrario , fazendo a Aftorga , ou Lugo principio , e a Braga fim da eflra- da j e o que me faz naõ poder difcorrer coherente nefta matéria he, porque na Via militar, que de Bra- ga hia a Aflorga, paííando por Chaves, uíavaò o con- trario, porque comecavaó a eftrada em Chaves, e acabavaó-na em Braga , íegundo logo veremos. Di-.ifa5 âasVUsmili^ . ^4^ E^^s Vias militares , humas eraó compen- tares. diofas , outras faziaó muitos gyos , e tudo ifto eftava

aífim ordenado, porque nefta forma tocavaó as prin- cipacs Povoa^oens do Paiz, o que fervia muito aos Pretores quando corriaó a Provinda , que govema-

vaó.

Livro IIL Cap. IX, J 2 3

va5 , para adminiftrarern jufti(ja nas Povoac^oens mais populofas , e fobre tudo íervia para cjue a oppreíTaó das marchas das milícias íe repartiíTe por todos os Po- vos da Provincia, e naó cahilTe em huns poucos. E os Emperadores, e Generaes tinhaó defcriptos Iti- nerários deftas Vias militares, e quando havia de marchar algum tro(^o, ou Exercito, le dava aos Cabos o Itinerário da Via militar por onde havia de ir , e elle fabia o «quanto havia de caminhar , onde haviaõ de defcan^ar as milicias, &:c. porcjue caminhavaó tres dias , e no quarto deícanc^avao , e aííim commum- mente fe elegia Lugar , ou Cidade mais bem provi- da para o fim da terceira marcha , e para deícan(^a- rem tres , ou quatro dias , fe elcgiaò Cidades grandes, c muy frequentadas , e abundantes , como tudo def- ere ve com a fua coftumada elegância Santo Ambroíio «^'^w*" AmhroÇtofohreo lobre oPlalmo iiís, no Sermão quinto, onde diz : ^^j^to, Mlles y qui ingreditur iter , Viandi ordinem non ipfe ãi/po- ?iit Jihi , nec pro fuo arbítrio Viam carpit , nec "Voluntária capit compendia , ne recedat à ftgnis , jzd itinerarium ah Imperatore acciplt , ^S" cuítodit illud , pr^fcripto incedit mdine , cmn ar mis fuis ambulat , reSíaque Via confidt iter íit inVeniat commeatuum parata fihi fubjidia. Si alio am» hulaycvit itinere annonam non accipit y tnanjioncm para- tam non inyenit , quia Imperator tis jubet h^c príeparari cmnia , qui fequMHur. ISiec dextra , mc finiítra à príej--- íripto itinere declinam , meritoque non deficit qui Impera- torem fuum fequitur. Moderatè enim ambuLit quia Impe- rator , non quod Jibi utile , fed quod omnibus poffibile , conjíderat: ideoque <^ ftatiya ordinat , triduo ambulat

1 ii exercitHs

5^4 ^^^^^^^^^ Arcehijpado de ^raga^

exeràtus , {juarto requtefcit dk. Eliguntur ClVttates , In (julhus tridinim , quatrtdnum , O" plures hiterponrhtur diesi fi dcjua ahundant , commerciis frequentantur : C7" ttã fim lãhore confcitur iter , dofiec ad eam urhem fierycni^tur , qU(e qudfi regalis eligttur , in qud fefjh exerdtihus requkí minijlratnr. Qiier dizer : A Scldadefca na marcha naÕ ilege o caminho fe^muío a fua yontade , nem as eftradas, e atalhos para ft apartar das bandeiras , mas vecehe itine- rário do Fmperador , e oh/erva o que ndle fe lhe ordena, caminha com as fuas armas , e pela estrada direita coíitl" íwa a Viagem , para achar os mantimentos , qne ll^e eftao preparados. Se bufe ar outro c^dmtnho ynao recíbe o fttftett' to , mm acha preparado quartel , porque o Emperador manda dlfpor tud* , aos que feguem as fuas ordens , e fe 71 defvtaÕ > jum para huma , nem para outra parte da ejtrada affinadaj e affim nao desfalecem os que obedecem ao feu Emperador , porque marchao ftuVemetite , em ra;^aÕ de que o feu Soberano naÕ attende tanto para a fua utU lidade j como para a poffibllldade de cada hum : pelo que determina as pauf is , marcha o Exercito ires dias , e no quarto defcança, DetcrmtnaÕ'Je Cidades em que fe demora tres y ctuatro y e mais dias y e fe procura y que fejao abun- dantes de agua , e opulentas ; e defta forte fe fa:^ d mar- eha fuayemente , até que fe chega àquella Cidade , que fe deputa para tertno , e he como Cidade ^al , em que def- cançíio as miUdas. ^tãntctiVidí militis/es 849 Deftas Vias militares fahiaó de Braga cinco, fam>w de Mraga. J^i^j^a para Lisboa , e quarro para Aílorga fegundo confta do Itinerário de Antonino^ e cftas íaó asc|ue agora havtinos de defcrever,

A Via

Livro IIL Cúp, IX. 525

S50 A Via militar , cjue de Braga faliia para Lif- ru wUitar , (jne f^hu boa , era por onde fe communicava com a Chancel- ^-^.f^^;;^' laria de Merida. Efta eftrada era fem duvida a mef- «o, »o Cítmmho ág Uj* ma , cjue a(5lualmente fe pratica de Braga para Lisboa, ^o4 aíira^4» o qiíe fe manifefta das diftancias , e Padraens , por- que Anconino na eftrada , que defcreve de Lisboa a Braga diz , que de Calle, que he Gaya , a BragA, eraõ trinta e cinco mil paíTos , que montaa oito kgoas , e tres quartos , e iRo meímo hs o que aólualmente ^ pouco mais , ou menos, fe conta de Gaya , ou do Por- to , que tudo vem a fer a meímo , a Braga. Prova- fe iílo outroíim de hum Padnô, que adiante no cap. 28. vay copiado, onde fediz, que de Braga a Gaya craó as legoas acima àn<Ls» Confirma- íe o meímo. com vermos, que em Villanova de Familicaó, que he a eRrada Real , que hoje le pratica de Braga para o Porto, eftá, 011 eílava huma grande col um na , fe- g indo reFeriremo". adiante , a qual apo-icava , qus dal- li a Braga eraó oito mil paíTos , iflo he , duas legoas que he a diftancia, q ie hoje fe acha também entre eRas Povoaçoens , doriJe bem fe infere , que aquella era a eftrada Romana. Naõ duvido com tuda,.que a cílrada aíflual íe diíference da Romana em algumas^ partes , ou pedaços j o que porém naó con lideramos, aqui , porque quando afirmamos fer a mefiría eftra- da , entendemos na mayor parte delia , e em quafi toda. O reílanie defta Via cahia fora da Província de. Galli za , e aíll;n nos naó pertence a fua deícripc^aã,

851 Das quatro eítradas , que de Braga fahiao para ARorga, a primeira , q^ue defcreve o Itinerário

(de Auto.-

5 2 5 Memorias do Arcebijpado de 'Braga.

de Antonino, he a que hia por Aquas, que he Chaves, da qual trataremos em capitulo à parte , porque cor- tava , e corria a mayor parte delia pelos limites , que hoje faó de Portugal. Via militar , que ãe A fegunda Via militar , que de Braga fahia

ira^a fahiapara ^f-^ para Aílorga , parte era maritima , parte terreílre. tcr^atejuadejcrip^cto. ^^j^j^ Braga , e bufcava o rio Cavado , e alli em-

barcavaó as Milicias , ou Pretores , e por agua hiaó a Aquas Celenas , que he onde hoje vemos Faó , e con- tavaó de Braga até alli cento e feííenta e cinco efta- dios , que montaó cinco legoas , pouco mais , fegundo a mayor parte dos Códices de Antonino referem. He verdade , que o Códice a que Zurita chama Na- ^ politano , por ler da Bibliotheca dos Reys de Nápo-

les , conta fomente oitenta eftadios , que faó duas le- goas e meya. De Faó , ou Aquas Celenias , palTavao as fobreditas embarcacoens a huma Povoac^aó chama- da Ficus Spacorum , diftante de Aquas Celenias cento e noventa e cinco eftadios , que montaó quaíi íeis le- goas e meya. Dalli corriaó as embarca(^oens até ou- tro Lugar, chamado Duo fontes , e diftante do ante- cedente cento e cincoenta eftadios j e ultimamente paíTavaó a Grandimiro , em diftancia de cento e oi- tenta eftadios. Aqui defembarcavaó , e continuavaó a fua marcha por terra , hiaó a Ti igundo , que ficava a vinte e dous mil paííos , ifto he , cinco legoas e meya de Grandimiroj depois paííava a Brigancio , em diftancia de fete legoas e meya; dalli continuava por quatro legoas e meya , e chegava a Caranico , donde continuava por mais cinco legoas , e entrava em Lu- go;

Livro IIL Cdp. IX. 527

go ; daqui fahia , e andadas cinco legoas e meya , paf- lava por Timalino , e logo andadas tres pela Ponte de Nevia^ ou Navia, depois andadas cinco por Ucaris , daqui hia a Bergido , vencidas primeiro quatro legoas; ulcimamence de Bergido, vencidas doze legoas e meya , chegava a Aftorga.

855 Bem fey , que ha de caufar novidade o di- prova-fe afohreditâ zer eu , que efta Via militar , parte era por agua , e àcfcrip^aô, naó por terra ; e que a muitos parecerá íonho efta mi- nha propoíií^aó ; porém eu a tenho por certa , e infal- livel, porque aííim fe prova claramente do Itinerário de Antonino. Efte defcrevendo efta Via militar deP de Braga até Grandimiro, conta as diftancias por ef- tadios ; e defde Grandimiro até Aftorga por paíTos ; e obfervando eu o eftylo do fobredito Itinerário, achey , que íempre que conta as diftancias por efta- dios , falia de navega<^aó , e caminho por mar , v. g. a paíTagem de Fran(^a a Inglaterra , a de Gallipolis para a Afia , a de Brindi/J a Durazo,&c. e ultimamente hum Itinerário marítimo, que o fobredito Antonino fez para os navegantes , todo he por eftadios.

854 E a razão de o Itinerário de Antonino ufar RaT^nS porque o itim» deftas medidas diverfas , parece fer , porque a via ter- "f^^ de^ntomno me-

'r cr de pATte {hjUriA por

rcltre tinha medida certa , e por cordel > e aíiim con- ejtAÁm , g pme por tavaô-na os Romanos por paíTos j porém a via mari- ^"^^^^ tima , e de navegaçaó pela mayor parte naõ fe podia medir por cordel , e aííim era precifo ufar de medi- da pela eftimariva j e tal era o eftadio.

85 tf Confirma- fe o que tenho diro, porque em Nefiarianaõfiachaô todo o elpa<^o , que corre de Braga ate Fao ji e de Fao te dtiia.

p<;la

5^8 Memorias do Jrcehtjpado de ^ragâ:

pela coíla até Caminha , naó fe acha Padraó algum , que feja medida de caminho, porque ainda que fc acha algum junto a Semelhe , Te entende ferem alli trazidos da eítrada militar , que hia para Lisboa , que lhe fica pouco diílante. Ao que eu accreícento , que me naò lembro de ter lido , que fe ache outroíím Pa- draó algum dos que chamaõ medidas de caminho , de ide a cofta de Caminha até o Padraó. E fendo af- fíra , que em todas as outras Vias militares, que fa hiao íJe Braga , exiílem muitos , e muitos Padroens , veníi a fâlca delles por toda a marinha, defde Faó até o Pa- draó , a fer argumento de que naó corria por alli ne- nhuma Via militar. Bem fey, que efte argumento he fraco , por fer negativo. Porém faó tantos os Pa- droens , que fe achaó em qualquer das outras Vias mi- litares , que lhe daó baftante vigor. Objecção. 856 Contra o que tenho dito fe pode oppor,

que o Itinerário de Antonino conta por eftadios a dif- tanciâ de Braga até Faó , e eíle caminho por for(^a ha de fer terreftre , em razaó de que Braga naó tem porto de mar , nem o rio Cavado , que diíU de Braga huma legoa , he navegável. " ex ^"^^^ refolver a aíTentar , que efta

frlcTey^7actnel't!do Via militar corria por agua , defde quaíi Braga até o rio Prado, Grandimiro , reparey nefte argumento , e paraíaber,

que forqa tinha , mandey vir huma exaéla Relac^aó da corrente do rio Cavado , defde a ponte do Prado , que fica a huma legoa de Braga , até Faó 5 e me veyo ef- crita por Diogo Villasboas Sampayo , peíToa naó fS das primeiras Familias de Barcelios , e de toda a Pro- víncia

Livre 111. Cip. IX. 5 2^

-vincia do Minho, mas outrOlim muy curiofa , e lida, a qual vay lanhada no Appendice deíle tomo.

858 O que deíla Rela^aó, que he exa<5liflima, jE/74ífí7, e fji-ve^açdô coníta, he, que o rio Cavado eftá gravemente área- «^í^*»^ rio cwio. do } que eílá impedida a fua navegac^ao de ac^udes ,

azenhas , e pefqueiras ; que as marés chegavaó com vigor, e forc^a até Mareces , fitio a par de Barcellos, duas legoas de Faó j que de Inverno ha poucos anr.os fe navegava até Villar de Frades , qre fica acima c e Barcellos huma legoa , ou pouco mais , e abaixo de Braga menos de duas; que tirados os impedimentos arcihciaes, tanto de Inverno, como de Veraó , feria navegável até cima de Villar de Frades , e até hum íi- tio , a que chamaó a Furada , onde o rio ie quebra al- gum tanto por entre alguns penedos.

859 Do referido le vê, que no tempo dos Ro- No tempo dos 7?om'4o's manos o no preci lamente era navegável ate o lobre- ^^^^^ •'

dito fitio da Furada , em barcos lem quilha , e de car- ga; e a meu ver , ainda em barcos de quilha , e dos que chamaó do alto ; e a razaó he , porque as marés haviaó de entrar muito mais acima, e confequente- mente o repuxo do rio, no tempo de maré cheya, havia de fer muito mayor.

860 Digo , pois , que as Milícias Romanas vi- As MiUcias Romanas nhaó embarcar acima de Villar , e abaixo do fitio da ^"'^-«'f''^''^' Furada , que vem a fer a huma grande legoa , ou pou- co mais abaixo de Braga , e alli fem duvida exiftia

Povoa^aó, para o embarque, e deíembarque das fa- zendas dos negociantes , que viviaó em Braga. E iílo he matéria provável , mas quafi neceííaria; ' Tom.II. K porque

\

530 Memorias do Arcehifpado de ^raga.

porque fendo certo , que o commercio em Braga era grande, como também a mulcidao^da gente, e que era a Corte de Galliza naquelles tempos, íevc, que para fe evitarem as defpszas das conduccoens ter- reftres até Fao, fe havia de ufar da facilidade da nave- gação pelo rio acima. SofpeiM , ou 'difcurfo ^ fe hey de dizer tudo o que entendo , eu

do AuthiT. defejara , que peíToas praticas obfervaííem bem todo

aquelle Paiz , que corre de Braga até a Ponte de Pra- do , e íitio da Furada , e viíTem fe achavaõ alguns veí^ tigios de canal artificial , que íe avifinhaííe a Braga , ou ao menos nos diíTeíTem , fe achaõ no íítio diípoíi- çaó para iíTo , porque poderá fer o houveíTe no tem- po dos Romanos , para facilitarem as conducçóes até muy perto da Cidade, Principalmente achando eu em huma doaí^aõ delRey D. Affonfo o Cafto, feita no anno 840. em que fe defcrevem os termos da Ci- dade de Braga, feito men(^a5 de humíitio, ou Lu- gar , a que chamavaõ Os Canaes. Tc^ ha-vUo occntmm ^62 E naÓ poíTo deixar de dizer , que naÓ obf- em que ai<iHm barcos taute O quc fc diz na Rclaçaó citada , a refpeito do íi- nan,.gar,è pua fura- ^-^ Furada, peíToas praticas daquella terra me fe- gnraraó , que a quebrada , que alli faz o rio, naó he tal , que impida o navegarfe , e que he muito me- nos efconí^a , que algumas , que tem o rio Douro nas partes por onde fe navega. O que confirmaó ainda com exemplos de barcos , que por alli pafTaraó , em fuccefTos furtuitos de peíToas, que por efta, ou aquel- la occaíiaò , ou andavaò brincando, e divertindoíe no rio cm barquinhos, ou fe atreverão a efta experiência.

Tornando

Livro IlL Cap. IX, 5 3 t

865 Tornando , pois , à Via nnilitar , que defere- Erm de Anmwo , W4 vemos acima de Braga para Aílorga, he cerco, que ^ISf" nella as diíbncias de 'Brigaiitlum , e Carankum a Lugo eftaó erradas , porque íe diz , que de Brigancío a Ca- ranico eraó quatro legoas e meya , e de Caranico a Lugo , os Códices , que poem mayor diftancia , di- zem cinco legoas , que bzem nove legoas e meya , fendo aíi^m , que da Corunha a Lugo íaó mais de dez legoas. Também noto , que entre Bergido , e Aftor- ga naó aílina eftancia alguma intermédia , le bem ha- via Inter ítmnhim F lavi um , como logo veremos.

CAPITULO X.

7)a ?íOtayel Vi a rnUhdr , que fahta de ^raga para ^Jlorga , e çortaya pelo monte Geres»

A Terceira Via militar , que de Braga , TenekA vk militar de JlV fegundo Antonino , íahia para Aftor- ^^'■^lí* ^ ^prg'^^ ga , era huma das mais nobres , e íoberbas eftradas , que edificarão os Romanos, Da fua magnificência ti-- nha eu noticia , mas confufa , e ao tempo , que íe eílava imprimindo efte volume, me chegou huma exad:a deícripc^aó da dica eftrada, de que me refulcou grande trabalho em reformar no original tanto os nú- meros dos parágrafos , e capitulos , como de alguns difcutíbs, a que me deraó luz as ínfcripcoens , que nella fe acharão. Refirirey tudo por extenfo.

865 Chegando à noticia do Padre Jofeph de Ma-

K ii tos

5 3 2 Alcmorlas do Arcehifpado de ^raga.

Pcríjuernfeinquirio^e tos Ferreira , fobHnho do Reverendiffimo Abbade da t>:i.q!!efom>i._ Fregueíia de S. Joaõ do Campo , Confelho de Bouro, o Decreto de Sua Msgeftade y para effeico de fe re- metterem as noticias do Arcebifpado de Braga à Aca- demia Real , vendo, a negligencia com que eraó em ffiuicas parres , e Freguefias .executadas , e achandoíe em-Gompanbia do dito feu tio , entregue totalmente à,]i<:aó da Hiíloria de Portugal , entrou no penfamen- to com outros curioíos , de examinar as antiguidades

o

da Via militar Romana , que paííava pela Parochia de S. Joaó doCampo, aque hoje, e de tempo antigo chamaó a Geira ; e porque era neceíTario valeríe de alguns rufticos para ro(^ar o mato , e cavar a terra em muitas partes , o que elles recuíavaó , pedio a Jerony- mo de Cetem , Corregedor , que entaó era de Vian- na,. em -cujo deftrido cahe o Confelho de Bouro, expediíTe as ordens neceííarias para a execução do Decreto Real , e coníeguidas , entrou com outras peí- foas na diligencia, em i6. de Agofto do anno de 1728. e de tudo o que achou, compoz hum livrinho , inti- tulado Thefouro de 'Braga , dejcuherto no Campo do Ge^ res , que ainda fe naó imprimio , e me chegou à mao manufcrito, e delle extrahi as noticias, e circunftan- cias deíla Via militar.

. , , - 866 Para melhor intelligencia de tudo , fe deve Nmiâão monte GmSo i^--it- *•^

luppor , que na Província de iintre Douro e Minho

ha humas montanhas dilatadas, e altiííimas, a que

chamaõ o monte Geres , que dividem o noíTb Reyno

do de Galliza,por onde encraó ; come(^a6 eílas mon-

lanhâs algumas legoas diftantes de Braga para a parte

do

Livro III. Cap. X. 533

ão Norte , encoftada ao Oriente. Formao-fe entre ellns grandes valles , e algumas tem profundas grutas , e ie achaõ por toda a parte veílidas eftas íerranias , e várzeas de arvores corpulentas , muitas de cafta deí^ conhecida , e em toda a eftaí^aó verdes. O mefmo he a reípeito das flores , e dos animaes , que fe criaó na- quelles bofques efpeíTos , e intrincados. Saò immen- ias as fontes , e muitos os rios , que defcem , e nafcem entre aquellas akuras , e penhafcos , cuja relação com miudeza fe deixa para a Geografia moderna , que a feu tempo Ie fará das particularidades deílas monta- nhas. Para ellas , e cortando-as para entrar em Galli- za , íahe de Braga huma eftrada , a que cliamaõ a Gtu ra , nome derivado dos gyros , que vay dando ; foy cbra dos P^omanos , porém hoje em muitas partea fe naõ pratica, e efrá cuberta de mato.

867 Sabe de Braga eílaeílrada , e he caminho Co??i;:rf-/e ^ /fg/cív£>íl de grande recreação para a vifta, e commodo , e def- ^'i^'^*»"^^^'*'^^ cancro para os paííageiros , porque naõ tem nada de fobida , ou defcida , em razaò de que nas partes onde as havia de haver, faz gyro , e voltas, com que fempre he caminho plaino , e ao mefmo tempo vay fempre. por terras altas, e que de Inverno defpedem, e naõ fica nellas encharcada a agua. PaíTa a huma legoa de Braga a ponte chamada do Porto , fobre o rio Cava- do , entra por Amares , e pela Fregueíia de Cayres , e vay ter a Paredes Secas , e entrando por cima deíie Lugar, come(^a a tomar o alto do monte , e vay por elle fazendo huma voíta fronteira ao Nafcente.. Paf- íada. eíla^ vay fempre bufcando o Norte e entra pelo

meya

534 ^^^f^^^^^^^ ^0 Arcebijpado de ^raga,

meyo do Lugar de Santa Cruz, e continua pela Fre- gueíia de S. Joaó de Balaní^a , e vay fazendo huma volta até entrar na de Chorenfe ; aqui paíTa por huns campos, que fícaõ por baixo do Lugar de Saim, e vay continuando pela Fregueíia de Moymenta , e pe- la de Villar , e paíTando TravaíTos , entra na de Cha- moim , e palTando por baixo dos Lugares Felgueiras, Santa Connba , Padros, vem a fahir ao Bico da Geira, íltio affim chamado , por alli fe dividir ò caminho da Geira, e Chamoim, vay continuando até Covide , eftrada commua , e nefte lugar corta a veiga de Santa Eufemia, e vay encoftandofe para a parte do ribeiro, que cahe dos montes vifinhos às ruínas de huma Po- voarão , a que hoje chamaó Calcedonia , e paíla por cima do Lugar de Barzes , e vem a íahir aos Seixos Brancos, e continua até S. Joaó do Campo, eftrada commua. Nefte lugar do Campo paíTa o rio, e Pon- te de Rodas , ou dos Eyxóes , obra , que também foy Romana, fegundo fe ainda dos aliccríes , e corta a veiga direita ao Lugar da Senra, e lahe à Cafa da Guarda, por detraz da qual faz huma pequena volta, e paíTa pelos limites de Villarinho, ultimo Lugar, e . Povoa^aò defte Reyno. Nefte deftrióto de Villarinho pafta os íitios chamados Berbefes , Bico da Geira , on- de fe divide o caminho da Geira do de Villarinho , Volta do Covo , Ponte do Arco , Ponte de Mon(^aó , Ponte de Alvergaria , Ponte de S. Miguel. Eftas qua- tro pontes fícavaõ todas no efpa^o de meya legoa , e nefte pequeno efpa^o paííava quatro vezes a Via mi- litar o rio Homem 5 hoje das caes pontes exiftem fo- mente

Livro III. Cap, X 5 3 5

mente os nomes, porque no nnno de 1642. a genre do Confelho de Bouro as derrubou , era razaó de mayor feguranc^a a reípeiro das guerras , que fe mo- verão com Caftella ; mas dos vefligios , que ainda em parte fe divifaó , fe percebe a perfei(^aò da obra , e que todas eraõ de boa architeólura , feitas de excel- lente pedraria, aííentada fobre betume^ fahindo pa- ra fua guarda dos lados do rio huns forti ííimos muros de pedra lavrada de almofadas, em que fobre cada fia- da cabe huma de juntouros , da mefma forte lavra- dos , e do meyo deftes muros fahia a obra de efqua- dria , que eraò os arcos.

868 Pouco efpaco adiante da Ponte de S.Miguel, Frofegne^e. fica a Portella de Homem , aííím chamada pelo rio Homem , que alli forma o feu principio , cahindo

alli as aguas do íitio^a que chamaò Lamas de Homem, que he huma grande planicie , e campina , que eftá no alto do monte Geres, na qual nafcem muitas aguas , que defpenhadas , vem cahir embaixo na Por- tella de Homem , e juntas todas nefte íitio , formaô o fobredito rio. Por efta Portella de Homem , onde fe divide Portugal de Galliza , vay a eftrada da Geira en- trar na Fregueíía do Valle em Galliza , e dahi a Lo* bios, ócc.

869 Efta he a eftrada , a que hoje chamaõ a Gei- Profeguefi, ra, e antigamente era a Via militar, que edificou o Emperador Vefpafíano , como depois veremos , e corria deícle Braga para Aftorga , pelos fitios , que fí-

ca6 nomeados, o que íe colhe tanto dos veftigios obra Romana, que aótualmente exifte , como dos Pa-

droens.

5 3^ Memorias do Ãrcehifpado de ^raga.

droens , que nella íe ach.ió. O primeiro monumento Romano deita Via milirar , he a Ponce do Porto , por onde a dica Via milirar acraveíTava o rio Cavado, co- mo fe conhece da fua fabrica , e archiceóliira ; os Pa- droens , que atéqui rinha , fe perderão , ou íoraó dalli transferidos para Braga , e o primeiro de que cemos noticia , he de hum , que exiília no alpendre da Igreja de Santiago de Villella , do qual faz men^aó a Monar- chia Lufitana , na 2. parte , livro 5. cap. 9. e tinha a íeguinte Infcripc^aó:

HA. ASTULA. TCAVL. C. C. RANTO. QUIRINALI. VAL. S. FESTO. LEG. AUG. M. P. X.

Defl:e Padraó o que fe percebe he , que era medi- da de caminho , e dizia , que dalli a Braga eraô duas legoas e meya , e que Rancio da Familia Quirina , e Valério Fedo , Legados do Emperador, fizeraó aquel- la obra. O que concorda admiravelmente com os Padroens , que depois diremos, e também com os que exiftem na Villa de Chaves. Eíle Padraó naó íey íe ainda exifte , e parece foy transferido para aquelle alpendre da Via militar , de que naõ devia diílar de- maíiado. Dalli em diante até o limite de Santa Cruz íe naó acha Padraó nenhum. No fim dos limites de Santa Cruz , no íício, a que chamaó Cautos da Geira de Palanca , eílaó dous Padroens , que atégora eftiverao enterrados , e alguns mais havia , íegundo íe colhe dos peda<^os , que ao cavar appareceraó. O primeiro

Padraó

Livro IIL Cap, X.

Padrão tem de alto fete palmos , e dez de circuito , com a ínícripí^aó toda gaita, incapaz de fe ler. O ou- tro Padrão eftá fronteiro ao primeiro, tem de alto doze palmos , e para poder eílar levantado , fe lhe enterrarão agora cinco palmos. Tem em roda dez e meyo , e huma Infcripí^aó com algumas letras gaf- tas , outras , que mal íe percebem , e examinada mui- to de vagar, íe acha na forma íeguince :

IMP. C^S. M. AUR. CARO : : : •• INVICTO P. C. P. M' X. T. P. •••VG. P. P. XV.

Deíía ínfcripí^aó o que fe colhe he, que foy dedicada ao Emperador Marco Aurelio Caro , que foy accla- mado Emperador em 282. depois de Probo, que morreo no mefmo anno , perto do mez de Agoíto. Caro morreo , ou no fim do anno 28^. ou entra- do o de 284. De que fe coUige, que neftes tempos foy reedificada efta Via militar , e também , que a Inícripçsò acima nas duas ultimas regras , ou tem muitos erros , ou as letras eflaõ de tal forte gaílas , que vimos a entender , que as ultimas diziaõ , que ' dalli a Braga Augufta err.ó quinze mil paíTos ; porque a quarta regra nca fem intelligencia. Nem fe pode dizer , que Caro teve dez vezes o poder Tribunicio , nem outroíim o Confulado , nem a acclama<^a5 de Emperador , que parece darlhe a letra X na Infcrip- pois imperou taó pouco tempo , como diííemos. Tom.II. L Conti-

538 Memorias do Ãrcebifpado de ^ragd,

870 Continuava a Via militar pela Freguefia de S. Joaó de Balança , e no ficio , a que chamaô as Tey- xiigas j na parede de huma tapada , que fica na mar- gem da Via militar da parte do monte , eftá hum peda(^o de Padraó , que parece foy partido , e lhe falta a parte em que eftava a Inferi pcaó , e delle fe defcobre quatro palmos de alto , e tem de roda tre- ze , e pela diílancia cm que eflá dos outros ^ parece alli demarcava a Braga dezafeis mil paííos , que íaa quatro legoís.

871 Profegui.a logo a Via militar pela Freguefia de Chorenfe , como íe dos Padroens , que ainda exiftem adiante da Capella de S. Sebafiiaõ , no fitio da fegunda repreza , ao do ribeiro do Campo das Cabaninhas , onde da parte de dentro dos Campos , por onde paííava a Via militar , eftavaó tres Padroens, dos quaes deixando enterrados dous , collocaraó da parte de fora do Campo , para onde também muda- rão a eftrada , hum Padraó , que tem de alto treze palmos , e deftes enterrados quatro , e tem de âm- bito onze e meyo , com a feguinte Infcripcaó :.

IMP.

Livro IIL Cap, X. 5 3 p

IMP. C^S. DÍVI. SEVERT. PIÍ. FIL. DIVÍ. MARCI. ANTONINI. NEP. DlVI. ANTONINI. PII. PRONEP.

DlVI. ADRIANÍ. ABNEP. DIVI. TRAIANI. PAR. ET DIVI NERVAE. ADNEPOT. M. AURELIO. ANTONI NO. PIO. IIL FEL. AUG. PART. MAX. BRIT. MAX. GERMÂNICO. MAX. PON llFICL MAX. TRIB. POT. XVII. IMP. iu COS lui. P. P. PROCOS.

Quer dizer : Efta ohra fe dedicou ao Emperador Glar MíD CO Jurelio Antonino ^ Tio , Felix , Augujlo ^ Tarthico máximo y Byitanico m.ixi}?io , Germânico máximo , Tonti- Jice máximo , do f oder Tribunicio de^ajete Ve^fJ , Em- pcríídor tres , Con/ul quatro , piíy da Tatria , Troconjul , Jilho de Di^fo Seyero Tio , 7ieto de T)i\w Marco Antonino , bijneto de Divo Antonino Tio , terceiro neto de Diyo Adriano y quarto neto de Diyo Trajano TarhcOy e de Divo Kerya. Naò tem efle Padraó o numero das mi- lhas , mas do lugar onde appareceo , mollra ferem de- zafete mil pados dalli a Braga, iílo he, cjiatro le- goas , e hum quarto. Do que dizemos adiante na ree- oificacaó das Vias militares , fe colhe o anno em que deíle Padraò confta fer eíla reedificada. E o di- zemos aqui,porque como acirra diíTemos^quando nos chegarão eítas noticias ,. eíla va eícrito tudo o mais deíle Yolum,^, e naó he razaó repetir o que íica di- to. L ii H:a

Profcgucfe,

Pioftguefel

5*40 Memoriai do Arcehijpado de ^râgã.

872 Hia continuando a Via militar pela Fregue- íiii de Choreníe, e por cinna dcNazareth, em hum íitio , a que parece chamaò Valfoyos , contava dezoi- to mil pados, ifto he, quatro legoas e meya de dif- tancia de Braga , conforme fe deduz de hum Padraó , que eílava alli enterrado, de forte, que fe viaó delle dous palmos , efpa^o, no qual lhe gaftou o tem- po todas as letras da Infcripí^aó, que continha , e deí^ enterrado, fe achou ter de comprido oito palmos , e outro tanto, e huma parte dalnfcrip^aó feguinte:

VII

G. CALPETANO. RANTÍO QUIRINALE. VALÉRIO. FESTO LEG. AUG. PRO. PR. VIA NOU. M. P. XVIIL

Efía Infcrip<^a5 , como fe moííra Je outras , que exif^ tem nefta Via militar , foy dedicada ao Emperador Vefpafíano, e feu filho Tito , e delia , e de outras, que depois referiremos , fe conhece foraó elles os que a inandaraó edificar, e foraò os fuperintendemes da obra Cayo Calpetano Rancio Quirinai , Valério Fef- to , e que a tal eftrada fe chamava Via nova , como diz o letreiro , e que dalli a Braga eraó quatro legoas c meya.

87^ Profeguia a Via militar por baixo do Lugar de Saim , e no íitio, a que chama5 os Lagedos , fazia dezanove mil paflos, iffohe, quatro legoaS, e tres quartos de diftanci^ de Braga > e alli ha poucos annos

LívroIIL Cãp.X. 541

exiíliaõ quatro Padrões , dos quaes hum roubou hum morador de Saim, a outro defpeda^ou, e ainda fe vem os pedaí^os. Dos outros dous , que exiftem ; o primeiro tem de alto nove palmos , e dez e meyo de circuito, a Infcrip^aó grande, parte eftá gafta, e apparece o íeguinte :

NI

: : : : : : KINI : r

::::::: ANI : :

N

:::::::: PAR :

: : : ANTONINO : : : : MAX. BRIT. MAX : : : : I : : : : III : : COS íilí : : : PROCOS. A BRACARA. M. P. XVÍIÍI

Das letras , que apparecera na fobredita columna , íe fer a lnfcrip<^aó a meíma , que a do Padraó, que acima diflemos íe dedicara ao Emperador Antonino^ Caracalla , com a difíeren(^a da diftancia das mi-- Ihas , ou paíTos,

874 O fegundo Padraó tem de alto defcuberto Profsgu^f^ da terra oito palmos , e dez e moyo em roda , e a Infcrip^aó que fay abaixai

54^ Memorias do Jrcebifpado de Braga,

:::::: N ::::: :

DIVI VESPASIANI VESPASIANO. AUG. PONT. MAX. TRIB. POT. VIII I. ÍMP. XV. P. P. COS. VllI : : CAESARE. DIVI: : : PASÍA : : : COS. Vií :::::::: : G. CALPETANO. RANTIO. QUIRINALE. VALÉRIO FESTO. LEG. AUG. A BRAC. M. P. XIX.

A declaração defla Tnfcripçaõ poremo^; quando tratar- mos dos Padroefis , que ainda exiílem na Porcella de Homem , entre os quaes eftá hum , que tem efta meíma Infcripcaó, porém toda íem corrup(^aó do tempo ; no que efl:a dos LageJos padeceo muito , co- mo delia fe , bafte dizer , que o Padraó foy dedi- cado ao Emperador '1 ito Vefpaíiano; e que denota- va, que dalli a Braga eraó dezanove mil paíTos, iílo he , quatro legoas , e tres quartos.

875 Dos Lagedos corria a Via milírar por Moy- menta, e dahi paíTava por baixo do Lugar de Travaf- fos , e junto a hum ribeiro de agua , c^i e cahe de ci- ma do monte, fazia vinte e hum mft paííos de Braga, conforme parece de hum Padraò partido em dous pe- da<^os, que agora fe defcobrio ao concertar da eft ra- da , e unidos, fazem treze palmos de alto, onze de cir- cunferencia^ e moflraó eíla Infwripçaó:

IMP.

Livro III. Cap. X. 543

IMP. CAES. DIVT. SEPTIMI SEVERL NEPOTÍ. DIVI. ANTONINI. PIL MAGNÍ. FILIO M AURELIO. ANTONINO. PIO. FEL. AUG. PONT. MAX. TRIB. POT. IL COS. PROCOS. P. P. FORTÍSSIMO. FELICISSIMOQUE PRINCIPI A BRAC. AUG. M. P. xxio.

Qr.er dizer : Efta memoria fe po:^ ao Eynperador Marco Aurelio Atitontno , 'P/o , Felix , Auguflo , Pontífice maxl- 7no , do poder Tribunkia a fegmda ye:^ , Conful , brocou- fui, pay da Patria , ForttfftmOy e Feltdffimo ^rbicipe. Daqui a ^raga faÕ Vmte e hum mil paffos j ifto he, cin- co legoas , e hum quarto. Eíla columna , fe he j que naó houve erro em cuidarem , que era huma, pois como diííe, íe compoz de dous peda(jos , me cauía a íua inícrip(^âó algum embaraça em faber fe trata do Emperador Antonino Caracalla , ou íe de Antonino Heliogabalo. Para fer dedicada ao primeiro , tem contra íi , que Caracalla naó era neto de Severo , mas filho, e também , que quando teve a fegunda vez o poder de Tribuno , que foy , ou no anno cento e no- venta e íete , ou no feguinte , ainda naô era Pontiííce máximo , porque ainda era vivo o Emperador Severo ieu pay , que raleceo em duzentos e onze , o que tu- do he contra o que refere a Infcrip^aõ , que chama Divo ao Emperador Severo ^ titulo , que fe naô dava

aoa.

544 ^^^^^^^^ /Ircehifpado de ^raga.

aos Emperadores fenaó depois de mortos ; e aííim fi- ca bem claro , que a Infcripc^aó foy dedicada a He- liogabalo , o que cambem fe chamou Marco Aurelio Antonino.

876 Entre os íícios de Lap-edos , e o Lup^ar de TravaíTos eftava íituada a Povoacaó de Salaniana , e ao que parece , fe havemos de dar credito aos núme- ros do itinerário de Antonino , ficava na Freguefia de Moy menta , ou Chamoim , porque neíla fazem os vinte e hum mil paíTos , ou cinco legoas , e hum quar- to, que o dito Itinerário nefta Via militar declara, que diftava Salaniana de Braga , principalmente conf- iando, que naquella Fregueíia havia columnas Ro- manas , e que ainda exiíle huma malicioíamente ef- condida.

877 Do ficio em que eílá o Padrão de Helioga- balo , profeguia a Via militar pela Freguefia de Cha* moim , por baixo do Lugar de Felgueiras , como fe deduz de dous Padrôens , que exiílem na dica eftrada junto de hum ribeiro de aguas , que cahe de cima do monte na Via militar , onde chamaó a Hervofa , os quaes agora foraó defcubertos. O primeiro tem fora da terra fete palmos em alto, e na circunferência onze, a Infcripc^aó fe naó percebe. O outro tem ao todo dezafcis palmos de alto , e para exiftir levan- tado , lhe enterrarão feis , e de circunferência treze , a Infcrip(^aó muy gafta , nefta forma.

Livro IIL Cap. X. 5 4 S

BRACARA. AUG.

A BRAC. AUG. M. P. XXII.

Naõ fe entende mais, c]ue o dizer, que dallí a Braga eraó vinte e dous mil paíTos , ido he , cinco legoas e meya 5 e rambem , que no corpo da Infcripcaò íe fal- ia va cm Braga.

878 No mefmo íítio exiftia outro Padrão muy Profegntfe. grande, que haverá vinte annos, os moradores de Chamoim conduzirão para a Igreja , e fízeraó delle cruzeiro. Naó fey , que tiveíTe Inlcripqaó.

879 Profeguia a Via milirar por baixo do Lugar Profeguefe, de Padros , e no fitio, a que ch.imaó Efporóes , fazia

vinte e trcs mil paflbs , como fe infere de hum Pa- drão , que alli íe vc em huma tapada , com oito pal- mos de alto, e dez de circuito, e a Infcrip(^aó apa- gada. Daqui íe prolongava outro quarto de legoa a Via mihtar ao htio , em que íe principia hum atalho para o Lugar de Cabaninhas, e Pergoim , onde eftao dous Padroens , que arégora efliveraó enterrados , o primeiro tem de alto delcuberto da terra fete palmos, e r.ove de circunferência; e efia Inícripc^aó gaflas militas letras :

D G NN VAL . . . CICINIANO . . . CICÍNLO. NN .ORÍ.

Tom.Il. M Efta

54^ Memorias do Arcebtjfado de IBraga.

Efta Infcripí^^õ naó fe entende bem ; mas querme parecer , que foy dedicada a Flávio Valério Liciniano, que foy declarado Cefar pelos annos de trezentos e dezafete, e era filho do Emperador Cayo Valério Licinio.

88o O outro Padrão apenas con ferva fínaes da Inícrip(^aó, que teve. Do mefmo ficio fe roubarão ha poucos annos mais dous Padroens. - 88 1 Difcorria logo a Via militar por de Co- vide , onde íe achou hum Padraó todo enterrado em huma horta do Lugar. Os moradores o collocarao no caminho da parte de fora , com huma Cruz em ci- ma. Tem de alto doze palmos , nove e meyo em circunferência, com a preíente Infcripcaó:

IMP. CAES G. MES. QUINTO TRAÍANO. DÉCIO INVICTO. PIO. FEL. A/G. PONT. MAX. T. P. FROCOS. liu COS. lí. P. P. A BRAC. MIL P. XXV.

Qiier dizer : Bfta memoria fe dedicou ao Emperador Ce^ far Gayo Mc f fio Quinto Trajam Dedo , InViFlo , Tio , Felix , Juguílo , Pontífice máximo , do poder Trlbunlclo, ^roconful a quarta "l^f^, Conful a fegunda^ pay da Ta- trla, Daqui a Braga fa:^em Vinte e cinco mH pajfos; ifto he , feis legoas , e hum quarto.

Quere-5

Livro IIL Cap, X. 547

' S82 Quereráó alguns Criticos regular efte Pa- profegu draó por efpurio , e fingido , parecer , a que eu me in- clinava também quando eícrevi o Tratado T>e Anti- quitíUibíis Conyentus 'Bracarduguftãni , tratando de our tro Padraò femelhame deita Via militar , que refere a Monarchia Lufitana , de que depois aqui também faU laremos. Mas a verdade he, que o dito Padraó he verdadeiro , e a fua Infcripcaó. Primeiramente, por- que agora fe acharaó de novo nefta Via militar , naó hum , mas cinco Padroens , todos com a mefma Inl- crip<^a5 , e enterrados , ou íummidos entre aquellas montanhas ; e quem os defcobrio , he peíToa fidedig- na , e foraõ delcubertos diante , e com o trabalho de muitas peííoas. De mais , que todos convém , e quaíi naó difrerem do que fe remetteo ha mais de cem an- nos a Fr, Bernardo de Brito. Nem haveria motivo para eftar lavrando tantas pedras , e taó corpulentas , em terras taó afperas , e ruflicas , fem utilidade algu- ma , nem fe achariaó Officiaes , que íoubelTem gra- var as letras , nem quando fe fízeíTe , fe podei ia ef- conder aos rufticos , e aos Párocos daquellas Pregue- fias. Pelo que refta vermos as difficuldades , que fe achaó no referido pela Infcripc^aó, e foltallas.

883 A primeira duvida, que obrigou ao P. p^oj-^g Fr. Bernardo de Brito a julgar , que a ínfcripí^aó, ain- da que verdadeira , eífava muito errada , foy a dos que imaginaraó , que a Infcripcaó tratava do Emperador Trajano , e que efte nunca uíara do titulo de Meífioj porém ifio foy clara inadvertência , porque a Infcrip- caó fó trata do Emperador Décio, que fe chamou

M ii Cayo

5 4^ Memorias do Jrcehljpacío de "Braga.

. Cayo Meííío Quinto Trajano Décio , que foy accla- mado Emperador em duzentos e quarenta e nove , e morto no anno duzentos e cincoenta e hum , como he vulgar na Hiftoria Romana.

884 A íegunda duvida he trazer efta ínfcripçaõ nomeado o Confulado depois do Proconfulado , e poder Tribunicio , contra o coftume de todas as Inf- eri p^oens Romanas. A ifto fe refponde , que foy erro do Official , ou de quem lhe deu a copia por onde de- via gravar os ticulos , ou dignidades do Emperador ; o que bem fe colhe da diverfidade , que nefta matéria guardaó eftas feis Infcrip^oens , fendo huma , pois em algumas eftá o titulo de Conful na mefma In feri p- <^aò duas vezes repetido, huma antepofto, outra pof poflo ao Proconlulado , como adiante fe verá ; era outro Padraó íó tem o Confulado , e naó tem o Pro- confulado.

885 A ultima , e mayor duvida he vir nefta Inf- cripcaó numerado Proconfulado , e de mais a mais numerallo com o numero quatro , e ifto naó ío em lium Padraó , mas em cinco , como veremos , fendo aftim, que o Império Proconfular nunca foy nume- rável , principalmente entre os Emperadores , nem fe apontará Infcrip^aó em que fe ache numerado, e mui- to menos podia fer em Décio numerado com o nu- mero quatro 5 porque caio , qUw foffe annual , o que naó era , Décio o naó podia gozar quatro vezes , por- que foy acclamado Emperador perto de Julho de du- zentos e quarenta e nove , e morto em duzentos e cincoenta e hum , depois de Outubro,

Para

Lhro IIL Cap, X. '

886 Para a folu^aõ de taó forte duvida, conful- ProfegNefe. tey a peíToa miiy erudíca , mas atéqui naó confegui reporta. O que fe ofFerece he , que ou foy erro da copia, que íe deu ao Official , que gravou as ínfcrip- ^oens , e como em todas íe governou pela meíma co- pia , em todas repetio o erro. Ou havemos de dizer, que no Proconíulado no Império de Décio fe obfer- vou diverío eftylo, que nos de mais Emperadores, para o que algum fundamento o dizeríè na Hifto- ria Romana , que Décio dimittira ao Senado o Impé- rio Proconfular, e o poder Tribunicio , de que pro- cederia reformarlhe annualmente huma , e outra dig- nidade o Senado Romano. Veja-íe a Pomponio Le- to , na vida de Décio. Também me occorre , que como efte Décio tinha governado na Província de Galliza alguns tempos , e reedificado todas as fuas Vias militares , como Legado do Emperador Maximino, e talvez como Proconful, osBracaros, e Gallegos, agora por lifonja contaíTem o numero dos annos , que fora Proconful , com governo fubakerno , e lhe iiniííem o Proconíulado independente , que eílava in- corporado com a mageftade, e nefta forma numerai^ íem o Proconíulado com enumero quarto j tres do fubakerno , e hum do independente.

S87 Em Covide , íobre o Lugar de Barzeas , ou Profegnefi, Barzes , corria a Via militar , e alli havia diveríos Pa- droens , que íe furtarão , e de que ainda fe vem al- guns veftigios. De hum delles faz mençaó Fr. Ber- nardo de Brito, na íegunda parte da Monarchia Luíi- lana , liv. V. cap. IX. que fem duvida deve de fer o

cruzeirO;^

5 50 Ade mor! as do Arcehlfpado de ^râga.

Cruzeiro , que os de Covide trouxeraõ do fim da Veí* ga de Santa Eufemia para Covide , o qual tem de aU to doze palmos , e os mefmos de circunferência , e a Infcrip(^aó efta meya enterrada , e virada para baixo, e íegundo relata o dito Author , continha o feguince :

IMP. CAES. AUG.

G. MISSIO. TRAÍANO. DÁCIO INVICTO. PIO. FEL: AUG. PONT. MAX. TRÍB. POT. COS II.

TRÍB. POT. PRO CONS. IIII. COS. 11. P. A BRACHARA. AUG. M. P. XXVI.

Quer dizer : Efta mmorh fe dedicou ao Emperador Ce- fav Augufto Cayo Mi f fio Trajano Décio , LiViSlo , Tio , Felix ; Jiigufto , Pontífice maxiyno , do poder Tribunicio, íonjul a fegunda Ve^, do poder Tribunicio , Troconful d quarta V^^, Conjid fegunda Ve^, pay da Patria. Daqui a -Braga Jugufta fao Vinte e feis mil pajjosj ifto he, cinco legoas e meya.

888 Efta Inícripcaó contém muitos erros. Na5 a Décio o nome de Quinto. Chamalhe Dácio , e ifto foy o que obrigou ao Padre Brito , a entender tra- tava do Emperador Trajano , que teve o titulo de Dacico , em razaó de vencer os D.icos. Duas vezes repete o feu poder Tribunicio , e cambem o Conlu- iado i tudo erros , e defcuidos.

Profe-

Livro III Cap, X. 5 5 1

S89 Pi ofeguindo a Via militar , chegava a huma profeguefeí volta qnaíi à vifta do Campo, no íitio onde efte lugar fe divide do de Covide , e alli contava vinte e fete mil paííos , como confta de hum Padraó , que os mo- radores do Campo ha muitos annos mudaraó da- qiielle íitio mais para baixo , e eftá fervindo de a huma Cruz. Tem eíle de alto onze palmos, e oito de circuito, e efta Inícripc^ao :

IMP. CAES. G. MÍSSO. TR. DACO. NUTO PIO. FEL. AUG. P. ^AX. TR. P. PC. IIII. CIÍ. P. P. A BRAC. M. P. XXVII;

Quer dizer: Eftd memoria fe dedicou ao Emperador Ce- jàY Cajo Mifjio Trajdno Dedo , InVtclo , *P/o , Felix , Jugnflo , Pontífice máximo , do poder Trlhmlclo , ^ro- cmlul d cjuarta "V^;^, Conjul a fegunda ^ pay da Patria, 7)íicjui a !Bra^a fãÕ Vinte t fete mH paJfos\ ifto he, féis legoas, e cres quartos. A ínfcripí^ao, como íe eílá vendo, tem baílantes erros nas letras.

890 Keíle meímo ficio efíava outro Padraõ , de Profegtiefa que na inquirição, que agora fe fez da Via militar, appareceo hum pedalo de dous palmos de alto, e oi- to de circunferência , de que faz menção Fr. Bernar- do de Brito , na fegunda parte da Monarchia Lufita- na, liv. V. cap. IX. e diz tinha eila Inícripcaó :

IMP.

5 5^ Memorias do Arcehifpado de "Braga,

IMP. CAES. VESP. AUG. PONT. MAX. TR!B. POT. IX. IMP. XIIX. P. P. COS VIII OPUS AMPLUM. V. D. D A BRACARA. AUG. M. P. XXVII.

Quer dizer : Efla memoria fe dedicou ao Emperador í^- far Vtfpâfwio Auguflo , Pontífice máximo ^ do poder Trlhuniclo no^e 'Ve;^es , Emperador de:^olto , pay da Ta- trla , Cojijul oito Ve^é-x , obra grandlofa. Daqui a (Braga AuguUa fão Vinte e fete 7nil pajj^os,

89 1 Naó falcou quem quizeííe duvidar defte Pa- drão, dizendo, que o vira, e que naó tinha o nome de Vefpafiano, porém devia de fer equivocac^aó , por- que já ha tempos naó exiftc , e o Padrão vifto pelo dito Critico, feria outro dos muitos, que naquella ef- tradâ exiftem , a qual elle naó indagou.

892 Aqui na veiga de Joaó do Campo, pega- do à area,em que efteve antigamente a Igreja Matriz, appareceo hum Padraó, que defcobrio o Padre Jofeph de Matos Ferreira , que fez , como diíTe, a inquiric:ió defta Via mihcar, indo ver o íítio da dita Igreja, pe- las grandes noticias, que tinha da fua antiguidade, e o fez conduzir , e levantar na eílrada, OLie corre por fora da veiga. Eíle Padraó naó he medida de cami- nho, mas memoria de hum edifício Romano, que alli exirtio , de que hoje ainda íe vem pedi-as elpalíia- dâs , e na paíí.igem do rio eftaó muitas todas d^ obra Romana. O Padraó dcfte edihcio tem de alto lete

pi! mos,

Livro TIL Cãp, X. 5 5 3

- palmos , e nove em roda. A primeira regra de huma infcripcaó que tem , parece eftar falta de duas, ou rres letras , e as cjue nelle fe vem , faò as feguinces :

M. C. CAES. C. L C. AED. M.

Por eíla planície parece havia outros edifícios , como fe efiá vendo ainda hoje nas ruinas de íeis baluartes redondos, que diftaõ huns dos outros o efpac^o de cem paíTos , e lhe guardavaõ os lados duas paredes , de que fe vem as ruinas.

895 Continuava a via militar por detrás da Tgre- Profeguefe, ja de S. [oaõ do Campo no íitio , que chamaó as Lei- ras dos Padroens , e alli contavaó vinte e oito mil paííos de dilbncia a Bra^a , onde exiítiaõ dous Pa- droens, que foraó conduzidos para a Igreja de S. Joaó do CampOjOnde os dcsfízeraó na reediHca(^aó da Igre- ja, e os mudaraó a figura quadrada , como hoje alli exiltem.

894 Corria logo a Via militar a Caía da Guar- Profegueje, da, aonde o Concelho da terra de Bouro tem a fua trincheira , em huma pequena volta , que aili fazia a Via militar , no fitio a que chamaó Padroens de Cal , fâziaó vinte e nove mil paíTos de diftancia a Braga , que eftavaó demarcados em hum Padraó, de que alli fe encontra hum peda<^o de cinco pal- mos de alto , oito de circumferencia , com huma Infcrip(^aó muy desfeita , em que ainda le o feguinte :

Tom.ll.

N DIVO

I

5 54 Memorias do Ar cebifpado de "Braga.

DIVO ABI ... . MAXIMIANO

A BRAC. AUG. M. P. XXVllII.

O que fe percebe defta Infcrip^aõ, he que falia no Emperador Maximiano, e que dalli a Braga fazem íete legoas e hum quarto. Outros Padroens refidiaõ no meímo íitio , que os rufticos defpedaí^araó. Trofegutfe, A diante da Cafa da Guarda paííava a Via

militar junto do primeiro ribeiro de agua , que corre por grandes fragas , e aqui contava trinta mil paíTos de diftancia a Braga , e tinha hum Padraó , que fur- tou hum morador de Villarinho.

CAPITULO XL

Continua a defcnpçaÕ da Via mllttar do Geres.

profeguefe, 896 O íítio, que acima diflemos,caminha-

va a Via militar ao fitio chamado o Bico da Geira. Aqui exiftíam muitos Padroens, to- dos fepultados debaixo da terra , que deícubertos , íe achou ter o primeiro treze palmos de compri- do , nove na çircmnferencia , e efta Infcrip(^aó :

(

:M P.

Livro III. Cap. XL 5 55

M P. CAES. M. AUR. PRO AUG I M P M N L

Efta ínfcrip^aõ naõ fe percebe muito, porque tem muitas letras comidas do tempo. Foy dedicada ao Emperador Marco Aurelio Probo , que imperou pel- los annos de duzentos e fetenta e leis.

897 O fegundo Padraó tem de alto fóra da terra ^^'^f^S'^^f^' nove palmos , e nove e meyo em circumrerencia ,

a ínícripçaó diz :

IMP. CAESARI TRAIANO. HADRIANO C. AUG PONTIF. MAX. TRIB. POTEST. XIIX COS IIÍ. P. P. A BRACARA M. P. XXXI Quer dizer : Efia memoria Je dedicou ao Emperador Cefar Hadridno Trajam Jugufto , Tomifice Máximo , do ^oder de Tribuno de:^oito Ve;^es , Conful tres , Tay da Tatria, Daqui a 'Braga faixem trinta e hum mil paffos, Ifto hs íète legoas , e tres quartos,

898 O terceiro Padraó eftá quebrado em hum Projegutfe, dos pedaqos , que eftá defcuberto cinco palmos de altura, e nove de eircumferencia, tem a feguinte Iní- crip(^aó :

N ii IMP.

5 5^ Memorias do Arcebifpado de ^raga,

IMP. CAES. C. MES. QUINTO. TRA. DECIO. PIO. FEL. AUG PON. MAX. TRÍB. POT. COS. II. P. P. A BRAC. AUG. XXXI

Quer dizer : Efta memoria fe po^ ao Emperaàcr Cefar Cayo Mc í fio Quinto Tvájano Vecio , Tio , Felix , yíU'- gufto y Tontifice Máximo y do Tcder Trihunicio Conful a fegunia Ve^. Daqui a Braga augufta fao trinta e hum mil paffos, Eíla he a ínícripí^aò mais concerta»ía , das Cjue nefta Via militar eftao dedicadas ao F.mpera- dor Décio , que foy Conful a íep^unda vez no anno duzentos e cincoenta, e neííe fe erigio eíla columna.

899 Eílaó no m.efmo fitio mais íeis Padroens quebrados , huns fem lnlcrip(^aõ , outros com ella apagada, e inútil.

900 Profegue a Via militar pela planicie , a que chamaó Cham de Linhares, onde ha vefligios de Povoa^âó antiga , mas naó entendo feja Romana y e chega ao íitio chamado a Volta do Covo; aqui ha cambem veftigios de edifício, e tres Padroens, huns. com a Inícrip^aò gafta , outro com ella inútil , e em que (ómence fe percebe , que dalll a Braga faò trinta c dons mil paíTos, ifto he, oito legoas. Exifte alli mais outro Padraó, que inteiro; cem defcuberto fora da. terra fete palmos em alto , e tem de roda oiça com a íeguince lnícrip<^aó..

D. N.

Livro IIL Cap. XI. 557

D. N.

MACIVO DECENTIO KOBELISSIMO F. CORENIISSI MO. CAESARI B. O. P. NATO M. XXXII

Qiier dizer : Fj}a memoria fe po;^ a 7wf]o Senhor Magno T)ecencio jUohiUj 7?io ,fícrentí//-nw icfdr^najddo para grande hem da ^'pullica. I fte Magno Decencio loy creado Celar por leu Irn 26 o Emperador Magnencio pelos annos de trezentos e cincoenta , ou r.o leguintej e defte Padraó íe , que a Província de Galliza fe- guio o feu partido.

90 r No mefmo íítio, pouco atraz do Padrão profegufe. acima fe outro com treze palmos de alto, edez em roda , e huma Inícripqaó em muita parte comida do tempo , ncfta forma : *••••• [-)

VICT ....

ACÍRS . , . . LORÍ. SL . ,

MAX NEKE . . . . : MÁRIO.

QOl No mefmo íitio fe acha outro Padrão da ppQjgg^fjg^ melma corpulência , que o antecedente j a Inícrip^aò muy apagada , n:ias com o leguinte :-

o » » »• *

558 Memorias do Arcebifpado de "Braga.

111 MAX. . . . POTEST. COS III. P. P.. A BRACARA. AUG. M. P. XXXII Seguemíe no mefmo íitio dous Padroens inteiros, hum de dez , oucro de doze palmos de altura , e de dez, e de nove de circuito , com as Infcrip^oens inúteis. Também alli à borda da eílrada da par- te efcjuerda eftaó huns Padroens , que cahiraó de cima da eftrada para aquella parte. Eftaó quebra- dos, mas unidos, diz a Infcrip^aó de hum o íe^ guinte :

IMP. CAES. C. lULIUS. VERUS. MAX. PIUS. AUG. GERM. MAX. DAG. MAX. SARM. MAX. PONT. MAX. LMP. VI. P. P. COS. PROCOS ET. C. lULIUS. VERUS. MAXI NOBELISSIMUS. CAES GERM. MAX. SARM. MAX. PRINCIPI. IVVENTUTIS. FILIUS D. N. IMP. C. lULII. VERI MAXIMINI. P. F. AUG. VIAS. ET. PONTES, TEMPORE

VETUSTATIS. COLAPS RESTITUERUNT. CURANTE Q. DÉCIO. LEG. AUG. PRET. PREF. BRAC. AUG. M. P. XXXH

Quer

Libro IIL Qp. XL 5

Quer dizer : O Ernperador Cefar Cayo Julio Fero , Maxi- mino, Tio, Augnfto, Gcrnumco, Máximo, Dacico Máximo, Samatico MaximoJPcntipce Máximo, Emperadcr féis ye- ;^es , Tay da Tatria, dtiful, Troconful , e Cayo Julio Fero Maximino, nohilUfimo Cefar, Cerma?iico Máximo, Sarma- tico Máximo, Tri?icipe da moc idade , Filho de ?wJJo Senhor o Emperador Cayo Julio Fero Maximi?io , Tio , Feli;^ , ^gujlo , reformarão as eíiradas , e pontes arruinadas do tempo , fendo Superintendente da ohra , Quinto Vedo, Le- gado do Emperador , e Trefeito do Tretorio. Daqui a 'Bra- ga fao trinta e dous milpaffos. Dèfta Infcripí^aó , em que naó pode haver fulpeica , fe , que efíe Quinto Décio foy Prefeito do Pretório , e por efta , e outra, que irá abaixo, fedevem emendar as mais dedica- das a efte Emperador , que vaó nefías noíTas Memo- rias« E o naó meter eu valido das Inícripc^oens defta Via militar para interpretar as outras , foy por cau- fa de menaõ chegar a relação defta Via militar, íe naó quando efte livro fe eftava imprimindo.

905 Pouco aíTaílado do Padrão acima fica outro profegi quebrado, que ainda conferva as íeguintes letras :

VALER] NO. PR. PR. C. V.

904 Da UT paííâva a Via militar ao íítio , a que profegi chamaó Alvergaria, em razaó de huma^ que alli havia antigamente para o recolhimento , e provimento dos paíTageiros. Aqui fe defcobriraó quatro Padroens in- teiros , e outros muitos defpeda<^ados. Oprimeiro dos

inteiros

5^0 Memorias do Arcehifpado de ^raga.

inteiros tem de alto doze palmos,dez de ciraimferen- ciâ j e huma inferi pçaó , de que ainda fe o leguinte : IMP. CAESARl MARCO. AURELIO CARINO. PIO . . .

Percebefe dizer , que aquella memoria foy pofía Emperador Cefar Marco Aurelio Carino. Efte foy nomeado Augufto no anno duzentos , e oitenta e trts , e no mefmo morreo:

905 Outro Padrão , que eflá quebrado , e tem de alto quatro palmos , e nove em roda , tem tíb Inferi pçao.

IMP. CAES. C. MES. QUINT. TRA DECIO. PIO. FEL. AUG. PONT. MAX. TR. PROCOS. Hll COS II A BRAC. AUG. M. P. XXXIII Quer dizer : Efla memoria fe dedicou ao Emperador Cefar Cayo Mc f/10 Quinto Trajam Décio , "P/o , Fdis , ^ugufio. ^ontifice Máximo 4o ^oderTribunicio/Proconftd a quarta 'pe^, Con/ul,a fegunda. Daqui a Braga faÕ trinta e ires núl faffos» Ilto he ouro legoas , e hum quarto.

906 Em outro Padraó quebrado de feis palmos de altura , e nove em roda fe vem eftas letras :

.... AVIP. F. AUG CUR .... ... IO DECIO VAL

Oulcí-

Livro IIL Cap. XL $6 L

907 O ultimo Padrão, que exiRe nefle fitioí eftá inteiro com onze palmos em alto , e dez de cir- cumferencia , e a feguinte Inferi pcaó :

IMP. CAES. CLA. TACI . . . .... INVICTO. AUG . . . MAX. TRIB. POTEST . . . S PAT. PAT. PROCON ... AC. A BRA M. P. XXXIII

Quer dizer : Efta memoria fe dedicou ao Emperador Cefar Gaudio Tácito , InViBo , Jugu/io , Tontifice Máximo , do ^oder Tribunicio , ^ay da Tatria , Troconjul : daqui a 'Braga faÕ trinta e tres mil pajfos. Efte Emperador Tácito entrou no Império no anno duzentos e íeten- ta e feis , e governou perto de hum anno. *

908 Da Alvergaria profeguia a Via militar hunri Profeguefe, quarto de legoa a diante , e chegava a Portella de Ho- mem , eftremidade, que divide a Portugal de Galliza ;

a qui fe acharão agora muitos Padroens inteiros , e outros deípedaçados_, e todos eftavaó enterrados entre matos. O primeiro Padraó tem de alto doze palmos , outro tanto de circumferencia , e huma Inícrip^ao m jy apagada. O que fe , diz.

. . . . TRAIANO . . .

A BRAC. M. P. XXXIIII

Tom.II. O Donde

5^2 Ademorias do Arcehifpado de ^raga.

Donde fe , fet: dedicado a Trajano , e que dalli a Bfaga faó trinca e quatro mil paíTos , que montaó oito Icgoas e mea.

909 Fronteiro a efte ePá outro Padrão inteiro , com quatroze palmos de alto, dez de circumferen- cia , e a Infcripaó parte apagada , e he a prefente.

ÍMP. CAES. C. lULÍUS. VERUS. MAXI PIUS. AUG. GERM. MAX, DAG. SARM. MAX. PONT. MAX. IMP. VI. P. P. COS. PROCOx ET. C. ÍULIUS. VERUS. MAX. NO BP.LISSIMIjS. CAF.S. GERM. MAX. SARM. MAX. PRÍNCIPÍ lUVENTUTlS. FILIUS. D. N. IMP. C. lULll. VERÍ. MAXIMINI.

QUINTO . . .

O LEG. AUG. G.

Quer dizer : O Empera lor Cefar Cayo fiilio Vero MaxU mino , 'P/o , Jngujlo , Oermmko Máximo , Dikíco y Sar' viadco Máximo ^ Tontifií e Máximo ^ Emperador ftis V?- ^fj , ^ây da Tatria , Con/ul , ^roconful , e Cayo Julio Vero Maximino , nobili f/imo , Cefar y Germânico Máximo , Scrmatico Máximo , Trincipe da mocidade , filho dc

Senhor o Emperador Cayo Julio Vero Maximino , .

Quinto Legado do Emperador,

9 T O Outro Padrão inteiro , e com hum peda- lo falto no , que tem fete palmos de alco , oito etn roda , conferva a Infcrip^aõ íeguinte.

IMP.

Livro

IMP. TITO. CAESARE. DIVI

VESP. F VESPASIANO. M. PONT. MAX. TRIB. POT. !X

IMP. XV. P. P. COS. Viii CAESARE. DIVI. VESP. S . . . COS VII C. CALPETANO. RANTIO QUIRINALE. VALÉRIO FESTO. LEG. AUG. PRO. PR, VIA. NO\A. A BRAC. AUG M. P. XXXIllI Parece cjuer dizer : Efta memoria fe dedicou ao Empcra^ dor Tito Vijpafiayío Ce [ar , filho de Diyo Vefpãfiãno , (pontífice Máximo , do Toder Trihmkio noye 'Ve;^es , Emperador quinze , fay da Tatria , Con/ul oito Ve;^es , e

a Ce/ar , fiH?o de Divo Vifpafiam Conful Jeteye-

^ej , femio Cayo Calpetano %ancio Quirinal , e V úhrio Fejlo Legado de Augufio^ e Troprctcr ni fta Via tWVa. Da- qui a 'Braga fe contao trinta e quatro mil pajfos.

911 A iobredita Infcripí^aó he a n.cJma , que a Profeguefe, copia acima do Padraò , que exiíle no íitio dos Lage- dos , e delias íe , que acerramos na correcc^aõ , que fizemos no livro antecedeute na DiíTertacaó íobre a incelligencia da celebre Infcrip^aó, que íe coníerva na Ponte de Chaves , e que cila da Via militar dc Ge- res foy gravada logo no anno feguinte de cento e oi- tenta, em que era morto Veípaííano. Deíla Inf- cripí^aò fe coUige outro íím , que eíía Via militar foy aberta depois da de Chaves. Falta na In(crip(^aò o no- me de Domiciano, cue Foy Coníul a íetima \ez, » O ii quando

t

5 ^4 Memorias do Arcehijpado de ^raga.

quando feu irmaó Tito o foy a oitava , no anno cento e oitenta ; e foy rifcado o tal nome ao picaó.

9 1 z Segue íe outro Padraó inteiro , com quatorze palmos de aleo, e treze em circumferencia , com efta Infcripcaó.

IMP. CAES. C. MESSÍO

QUINTO. TRAIANO DÉCIO. PIO. FEL. AUG. PONT. MAX^RÍB. POT. PROCOS iiii. COS III A BRAC. AUa XXXIIII

Quer dizer : EHa memoria fe dedicoti ao Emperador Cefar Cayo Mefjlo QuJnto , Trajano , Décio , Tio , Fe//^ , Au- guíto , Tontifice Máximo , do Toder Tribunicio , Trocon- a quarta Ve^ , Conful a terceira. Daqui a Braga Au- guíta fão trinta e quatro ?nil paffos. Efte Padraó foy pof- to hum anno , ou perco diíTo depois dos antecedentes , dedicados a efte Emperador , porque fendo os outros fabricados no íeu Confulado fegundo, efte o foy no terceiro ; ifto he, no anno duzentos cincoenra e hum.

9 1 ^ Seguefe outro Padraó inteiro , que tem onze palmos de ako , e dez de circumferencia , e efta Inf- cripcaó.

'IMP. CAES. DÍVÍ. SEVERT. PIÍ. FÍL. DIVÍ. MARCL ANTONINI. NEP. DÍVI. ANTONINI. PIÍ. PRONEP.

DlVI, ADRIANO. ABNEP. DIVÍ. TRAÍANI. PAR. ET. DIVI. NERVAE. ADNEPOT-

M.

Livro III, Caf. XL ^6%

M. AVRELÍO. ANTOKIKO PIO III. FEL. AUG. PART. MAX. BRIT. MAX.

GERMÂNICO. MAX. TRIB. POT. icm IMP. iií COS IIII. P. P. PROCOS A BRAC. AUG. M. P. XXXIIII

Quer dizer : Efta memoria fe dedicou a Marco Jurelto Antonino , Emperador Cefar , filho de Diyo Severo ^io , neto de Dho Marco Antonino , hifneto de Diyo Antonino Tio , terceiro neto de Di^vo Adriano , quarto neto de Diyo Trajano Tartico , e de Diyo Nerya , tres ye:^es Tio , Fe- //^ , Augnflo , Tarthico Maxmo , 'Britânico Máximo , Germânico Máximo ^ do Toder Trihunicio dei^afete ye;^es , Emperador tr es , Confnl quarto.

914 Além deftes Padroens fe achaõ outros , que- profeguefi, brados , e inúteis no meínno íicio , de que profeguin- do a Via n ilitar , fora da eftremidade de Portugal , e algum eípaço antes de chegar à Trincheira dos Gal- legos , eftaó dons Padroens , dos quaes hum ainda eftá levantado , e com a Inícripc^aó muy desfeita o outro cftà mais de amccade enterrado , e ao entrar na Fre- guefía do Valle, que he a primeira de Galliza , por cima do rio das Caldas eftà hum Padraõ defpeda<^a- do , e dividido em tres partes , com baílantes letras , e fe prefume íer hum, que Frey Bernardo de Brito diz encontra-â , vindo de Lobios para a Portella de Hc- xr.em , onde cliamaó os Banhos , e c^ue dizia o fc- guinte :

IMP.

^66 Memorias do Arcebifpado de ^raga,

IMP. CAES. TRAIANO. AUG. PONT. MAX. TRÍB. POT XVIIÍ. P. P. A BRACHARA. AUG. M. P. XXXVIII Quer dizer : Efla memoria fe dedicou ao Emperador Ce/ar Trajofio Augufto , Tontifice Máximo , do Toder Trihuni' cio dezoito 'Ve:^zs , ^ay da Patria. Daqui a 'Bra^a faÕ trinta e oito mil paffos, Ifto he nove legoas e mea.

9 1 5 Tal he , a famoía Via milicar , a que hoje no Paiz de Entre Douro e Minho inticulaó a Geira , em que os Romanos fízeraó oftentaçaó da lua grandeza , e magnificência , rompendo montes , e vencendo al- turas , fabricando repetidas Pontes , e lançando a eítra- da fempre plaina , larga , direita , e bem cacada , que hoje fe naó pratica , ou fe pratica pouco , e fervindo ainda de admirat^aó as fuas ruinas, opprimidas do ma- to , que produzirão os annos.

916 Do fitio dos Banhos corria efla Via militar mais quatro legoas e mea , e chegava a huma Povoa- ção, que chamavaó ÂL\u<.e Origines^ iíto he , Nafcimen- to, ou Origem das aguas. Daqui, andadas tres legoas e mea^tocava em huma Cidade chamada ÂliuíS. Querquen- 71^ y iíl:o he , Aguas de Carvalhos , fem duvida em ra- zão de algum boíque , que alli iiavia deflas arvores j

- logo depois de tres legoas e hum quario , pafíava por huma Povoação , a que chamavaó Geminas , iílo he , Aguas dobradas ; e naó parando por efpaço de quatro legoas e mea , chegava à que inticulavaó Salientes , iflo l.

Lhro IIL Cap, XI. 5^7

he , Agnas cjue brotaõ ; e defía , pafTadas duas legoas , tocava huma Povoarão , e Caílello , a que chamavaó Preíidio , e logo a tres legoas e hum quarto entrava em Nemetobriga , donde caminhava até Fórum , ifto be , a Praça , que diftava de Nemetobriga quatro le- goas e tres quartos. De Fórum paíTa a Gemeílario , em diítancia de quatro legoas e mea ; logo , andadas duas legoas e mea , entrava em Bergido , e depois a cinco legoas em ínteramnio Flávio, e dahi a fete legoas e mea hia acabar em Aftorga , tendo corrido defde Bra- ga o elpaí^o decincoenta e tres legoas, que montaó juramente duzentos e doze mil paíTos , que lhe o Itinerário de Antonino. F.ra a mais breve entre todas 2s Vi^s m litares, que de Braga corriaó para Afíorga. Naó bufcava a Cidade de Lugo , como outras , e aíTim corria mais inclinada ao Nafcente , e paíTava por Ne- metobriga , que eílava na Chancellaria de Aftorga, fegiíndo diílemos , e diftava de Aftorga quafi vinte e cinco legoas ; e fe havemos de julgar a eflrada de en- tão pela de agora , de que nsò podia diftar muito , por- que como dilíe , eíia efirada era com pend io fa >e tam- bém por outras razoens , corria a fobredita eftrada da Porrtlla de Homem, e Freguefia do Valle até Lovios, de Lovios 3 Val de Salas , ou Lobeira Arroidc, e dalli por detraz da Serra de Alvergaria a Viana delbolho , c •depois pela Ponte de Dom-ingos Flores bufcava a Pon- ferrada , e hia acabar em Áílorga. De rr.odo , que quanto a diílancia da efirada , que hoje fe pratica , e a. que traz Anfcnino,toda a differenca coríífie em fete legoas e mea , porque adualirente contaó de Braga a

Morga^

5^8 Memorias do Arceblfpado de 'Braga.

Aftorga , indo pela Portella de Homem a Lovios , e Ponferrada , quarenta e cinco legoas e mea , e a eftra- da Romana, íegundo vimos, contava cincoencae tres. yiamUítar, <jiie fabia ç 1 7 A ulcima Via militar,que Antonino defcrcve 'l'Jl%Cgl\^^^^^ Braga a Aftorga , he a que corria por Tuy , e a def- yUitouin) no camifiba cfcve na fórma íesuinte. Diz.que todo o comprimen- tcrga. ' to comprehendia o elpaço de duzentos e noventa e

nove mil paíTos , que montar» íetenta e quatro legoas e tres quartos , defta forte. Sahia a eftrada de Braga, e até Ponte de Lima fazia quatro legoas e tres quartos , paliava a Tuy, e fazia mais íeis legoas , profeguia até huma Povoac^ao chamada Burbida , e contava mais quatro legoas , e outras tantas dalli a Turoca j corria depois até Aquas Celenias em diftancia de feis legoas j logo contava mais tres até Pria , donde profe- guia até Aíferonia , que diftava feis legoas menos hum quarto : feguiaíe a eftrada até Brevis por efpa^o de tres legoas ; dalli, andadas cinco,chegava a Mareias , e a diante quatro legoas entrava em Lugo , donde paf- fava a Timalino , contando mais cinco legoas e meaj depois a Ponte de Nevia tres , logo a Utaris cinco , donde até Bergido fazia quatro , e de Bergido até In- teramnio Flávio cinco , e dalli, corridas fete e mea , a- cabava em Aftorga. jfommi nos paífos na 918 Ella conta primeiramente eflà errada , por- itincrario de Antonino ^ ç^^^ Antonino diz , Gue toda a eítrada con-

tinha íetenta e quatro legoas e tres quartos , e toma- das as partidas,produzem fetenta e cinco legoas e mea; porém iílo procede da diveríídade dos Códices em contar a diftancia dos lugares , e o erro he taó peque- no ,

Livro IIL Cap. XI. 5 í ^

no \ que naõ fe deve fazer cafo delle ; porém além diffo tenho para mim , que o Itinerário eftà errado nas diftancias.

91^ He também de advertir, que efta eftrada M-vertencia ãcerc4 de Lugo em diante era a meíma^que vinha de Trigun- '^^-Z^* f^tamilm,^ do, depois de ter difcorrido pelo mar. E outro fim fe deve reparar , que efta Via militar gyrava grandemen- te , e corria muito mais Occidental , que a do Geres , e hia bufcar a Cidade de Celenas , que he Aquas Ce- lenas , e depois a Lugo.

920 O efpa(^o, que a íobredita eftrada caminha- Efp^o ] que efta vu va pelos limites, que hoje pertencem ao noíTo Reyno, p^';í'^jf ^^^^^ eraó dez legoas , e era a meíma , que hoje fe pratica de Braga a Valença , ou Tuy 5 o que fe prova com cer- teza , porque a ellrada aiflual fahe de Braga , e vay à Ponte do Prado , onde conta huma legoa , e por alli mefmo corria a Romana , como confta de hum Pa- drão •, e medida de caminho , que alli fe achou , de que fallaremos a diante , o qual dizia , que dalli a Braga eraó quatro mil paíTos , que vem a ler huma Icgoa. Da Ponte do Prado continua a eftrada até Ponte de Lima , e conta mais quatro legoas , e iíTo mefmo era na Ro- mana , como confta do'Itinerario de Antonino , cue conta de Braga a Ponte de Lima ; cinco legoas menos hum quarto , e confta ainda melhor dos Padroen-- Ro- manos , que aólualmente exiftem junto a Ponte de Li- ma no lugar , a que chamaó Além da Ponte , dos qraes fallaremos depois , quejdeclaraó ferem dalli a Braga cinco legoas , que vem a íer quafí o meímo , que hoje. De Ponte de Lima , e do lugar Além da Ponte corria Tom.íí. P a eftrada

5 7 o Memorias do Arcebifpado de ^raga.

a eílrada pelas mefinas partes , que hoje corre , até che- gar a beber no rio Minho em Valença , como confta de hum Padraó Romano, qiiealH fe achou nas prayas da quelle Rio, de que trataremos depois,no qu J fe de clarava , que daUi a Braga erao dez legoas e mea , que vem quafi a fer a mefma diftancia , que hoje, em que de Braga a Valenqa contaó dez legoas , e a diverfidade , que ha entre a conta Romana , e a a(5tual, entendo procede de naó guardarmos aílualmente me- dida certa nas legoas , mas fazermos humas mayores, outras mais pequenas.

CAPITULO XIÍ.

Da Fia mllltdr^ que de 'Bra^a fahia para Aftorgâ, pciIJíHí' do por Jquas Flavias , ijio he , Chaycs.

f^ia mUiur , fahÍ4 ^2 1 A Via militar , que fahia de Braga para deB^a^^ypap-uapor AíWga , c paííava pof Aquas Flavi-

as , que he Chaves , atraveíTava pelos limites , que hoje pertencem ao noiro Reyr.o , e por efta razaó he lúmrano de Antonwo neceííiirio tratar delia m.uito efpecial mente j antes po- noprimtro aninho de ^ defcrevcrmos , he neceííario provar , que a

Braga a JJtQrgx pag. , , ^ t XT- í_

^ -. havia , e outro lun , que a tal Via militar he a que

defcreve Antonino em primeiro lugar. Certexét daftia exijleti' ^2z Qus houveffe a tal Via militar, he certo, porque exiíicm m.uitos Padroens Romanos , aííim em Chaves , como por toda a eftrada , íegundo depois ve- remos , que aííim o declaraò.

Que

tta.

Livro IlL Qp. XIL 571

92^ Qiie efta feja a Via militar, que Antonino rrava^efcr^hunía^ds defcreve em primeiro lugar também fe prova , por- 1'^^ dejmve Jmomw. que Antonino defcreve quatro eílrad is de Braga a Af- torga , huma , que conia pela coíla do mar , outra , que elle diz hia por Ponce de Lima , e Tuy ; c nenhu- ma deftas podia fer , a que hia por Chaves , que toda corria pello lercaó , e muy diftante das fobreditas Pc- voaçoens. Segue íe pois , que a que hia por Chaves , hade fer huma das outras duas , que elle defcreve ; e que o leja efta primeira , fe prova , porque elle diz , que corria por huma Povoa(^aó , a que chamavaó Aquas , e ifto fe verifica de Chaves , cujo nome era Aquas Flavias , e por íer Cidade principal , a intitula por antonom-ííia Aquas , o que naó faz às Povoa^ocns de outra eftrada , porque íempre declara nas Povoa- çoens (;hamadas Aquas o titulo , que tinhaó , aHíim co- mo Aju^ Origines , Jtiuce Querquemict. Donde íe , que aquella Povoação , de que aili falia , era Chave?;.

924 Provafe mais, porque efta primeira eftrada Seguida pro-val de Antonino vay lançada de íorte , que he a única,

que naó pafta por Bergido , nem por ínreramnio Flá- vio para hir a Aftorga , e ifto he o que faz a eftrada de Braga para Aftorga por Chaves , nao pafta por Fl- Vierco , que he Bergido , mas vay buícar Aftorga pela Puebla de S.enabria.

925 Suppofto pois , que efta primeira Via n:!Íli- reímpçao , ^«e d:lk rar ,que Antonino defcreve , he a que corria por Cha- /''^^''^'"•'w.

ves , refloriremos primeiro o como elle a defcreve , e depois diremos quaes laõ hoje as terras por onde paf- fava no cempo dos Romanos , porque a tal tftrada íe

P ii acha

$J2 Memorias do Arcebifpado de ^ragà.

acha aélualmente miiy diverfa. Diz o Itinerário de Anronino , que efta Via militar corria de Braga ate Aftorga , pelo efpa^o de duzentos e quarenta e fete nnil paííos , que] nnontaó íeíTenta e huma le- goas e três quartos , nefía fórma. Sahia a eftrada de Braga , e corria ate Saiacia em diftancia de cinco legoas , paííava depois a Prefidio , e fazia mais féis le- goas e meya ; lego, andado outro tanto, chegava a Ca- laduno , e dalli continuava por efpac^o de quatro legoas e mea até Aquas , que diíTemos era Chaves , donde profeguia em diftancia de cinco legoas até Pineto , e d; qiii , andadas nove legoas , tocava em Roboreto , dalli hia a Compleutica , em diftancia de fete legoas e hum quarto 5 depois , paííadas íeis legoas e hum quarto , chegava a Veniacia , donde profeguia até en- trar em Petavonio, andadas fete legoas , depois a ef- paí^o de tres legoas e tres qiiartos chegava a Argenti- ola , e dalli a tres legoas e mea findava em Aftorga. 926. Defra forte defcreve Antonino efta Via mi- Erroqtie h/t nas àijim^ litar , em que certamente ha erro nas diftancias , ^OX' çtas em Antonino» fomma diz , que eraó duzentos e quarenta e

íete mil paíTos j e as partidas montão duzentos e cin- coenta e fete mil , o que pròcede de algumas vezes nos Códices variaretr. as diftancias,

927 Efta eftrada era a mais Meridional de todas íjiaVuera mmMe- outras , como fe das terras por onde efta , e as ridionai , que ai outras, ^lais corriió. He certo porém , que era muy diver- fa , e fazia muitas mais voltas , que a eftrada , que hoje fe pratica. O que íe prova das diftancias , porque de Braga a Chaves concaó hoje quinze legoas , e o Itine-

sario

Lliro III. Qp. XII. j 7 3

rario da eílrada Romana conta vinte e duas e mea. Da mefma forte de Chaves a Aíforga contaó anual- mente vinte e tres, ou quando muito, vinte e fete , fe- gundo as diverías eílradas de que fe ufa ; e pelo itine- rário a eftrada Romana fazia quarenta e huma legoas e tres quartos , o que parece moílra eftarem viciadas as diftancias no Itinerário , e aííim o julgarão algumas pefloas , aquém confultey nefte particular na Provin- cia de Traz os Montes j poiém eu , poHo que conve- nho em que as diftancias em Antonino algum tanto andaó erradas, com tudo entendo , que na tftrada def- de Braga até Chaves , ou naó contem erro , ou he muy pouco 5 e a rízaõ he , porque os P^droens , que exiftem , concordaõ com as diftancias de Antonino , lêgundo logo vertn os , e neftes termo^ havemos de attribuir a difcrcpancia da eftrada aétual à eftrada Ro- mana as voltas , que efta fazia , e haverros de procu- rar inda'Tallás. De Chaves para Afíorga naó affirmo tanto ,que o Icir erário deixe de conter erro grande.

928 Referira a defcripí^aÓ de Antonino , fegu^fe p^,>,,^, referirmos os Padroens , e medidas de caminho , que militar, exiftem , 011 f^ibemos exiftiaó no caminho de Braida a

Chaves , e dalli a Afíorga , e os fítios da fua exilten- cia > e as diftancias , que apontaó , para crmbinarmos tudo C3m o Itinerário de Antonino , e aftiim poder- mos depois regular a eftrada , e dizer o por onde corria,

929 Junto ao Irgar das Boticas, qnediPahum PaiJraôejueej}à.mB(h Í)narto de legòa de Ruyvaes , depois de dividida a ef- ^^^O'^'»"' trada a^ftual , que por alli corre dc Braga a Chaves , à

viíla

di Ta vora. Outro Padr4S.

Outro Quebrado.

5 74 Memorias do Arcehtfpado de ^raga,

Ji ev'ieficU detodos vifta do TIO Canhua, eílaó dous Padroens levantados (ics Padroens coníia p^^^^ ^ mnQ do Posntc , hum delles naó cem letras , o

(ta relação do Btfpy de ' i jj-i c Jt^- j-

Ura-npiíis^edeTImie oucro he dedicado ao bmperador 1 rajano , e diz , cjue j,T.....^ dalli a Aquas Fia vias Ía5 dez legoas e tres quartos.

9^0 No outro, ra -no da mefma eftrada , que fe divide no lugar das Boticas fobredito , perco do lugar de Campos, enrre o Poente, e Sul da dita eílrada , a tres tiros de moíquece , eftà quaíi fumergiclo em Hum ribsiro , entre hum prado , outro Padrão , dedicado ao Emperador Cláudio, e diz, que dalH a Braga eraó cinco legoas; porém o fobredito Pairaò dizem foy tirado do alto do monte, chamado a Porcella de Rebor- dellos , e trazido para o lugar onde jaz.

9^1 Na mefma direitura, para a parte do Poente , eftà outro Padraó quebrado na parede do fobredito prado, e tem cinco pilmos de alto, oito de groíTo^ e tem eítas letras XXXV , que quer dizer trinta e cinco, E efte Padrão fjy também [jermudado para alli da Por» tella de Rebordellos , fegundo fe diz.

9^2 No lugar chamado Villarinho dos Padroens , na mefma eílraia de Braga a Chaves , fe vem tres Pa- droens , hum naõ tem letras , outro he dedicado a Ti- bério Emperador , e diz , que dalli a Braga faó cinco le"'oa3 ; ambos eílaõ deitados no cham , e tem onze palmos ãi comprido, e oiço de groílo; o outro eftà le- vantado dentro de hum campo, perto dos outros; ve-fe que teve letras , hoje fe lhe naó conhecem mais que e'l:is M. P. XL. lí. ÇIajt dizer. Qjurenta e dous mH fjffos. ^ 9j5 F6:á da eílrada adual de Braga a Chaves ,

nas

Mítls tres Padroens.

Livro IIL Cap, XII. 575

nas vifinhancns porém delia , e fitios por onde pode- nios conjecturar rodeava a eRrnda Romana , fe achaõ os leguintes Padroens. Ko Ztbral , lugar pouco padraõ no ZtlraU diílance do de Ffpindo , junto à Capella de S. Ma- rtinho, eílaõ dous Padroens , hum o^iiebrado , e com letras, mas delias íe naó pode colher ocjiie diziaó ; tem doLis palmos de comprido , oito de groíío. O outro naó denota diílancia alguma , fomente de clara fer mandado por por Cefar Augi fto.

9^4 No lugar de Sangunhedo , Freguefía do Outro eni S4}!gu}.hed(f, CoJecoío do Arco , eílá hum Padraó dedicado ao Emp-rador Cláudio, e diz , que dalli a Braga eraõ oito legoas *e tres quartos. Na mefma parte eftaó dous Padroens metidos na parede de hum forno do fobredito lugar ; rem letras , mas íem desfazer forno fe naõ pórlerrw ler.

9^5 Em hum fitio, a que chamaó Lanra do Car- outròmlmadoCar- valho , pouco difiante de Porto de Carros , em huma ''^'^^^o. terra de p?.5 , a cue chamaó o Eorrajeiro , deíviada da eftrada deus tiios de mofquete , exifte hum Padraó com letras Promanas 5 parece fer dedicado a Tibério , mas naó ie llie divífsó letras <:apazes de entendermos a diílancia , que derctava.-

9^6 Também no fitio , a que chamaó a Pafíorla , outro ra Pajlcm. huma legoa antes de chegar a Chaves , exiftia hum Padraó , fegundo refere o Doutor Joaó de Barres nas Bana ras Ar.ti^nh^i- fuas Antigudades de Entre Douro e Minho, no cz-^ ^'f'''''' '

pitulo , em que trata da Cidade de Braga , o qual era dedicado ao Emperador Trajano , e declarava , que dalli a Chaves era huma legoa.

Outro

57^ ^^morias ào Ãrceblfpado de Uraga,

9^7 Outro Padraó exifte em Val(ietelhas,cledica- do ao Emperador Maxiraino ; naõ declara a diftancia.

Outro em rinhas. 9^8 Outro exiftia em Vinhaes, que traz Grucero,

e apontava a diftancia de vinte e cinco legoas , fem di- zer refpeico de lugar.

Outrom Lubien. 9 ^ p Outro Padraó dizem exifte em Lubian , ter-

ra de Caftella , na eftrada para Aftorga j porém atéqui me naó chegou a fua ínfcripc^aó.

DsusfjoCodecofo, 940 Além deftes , acho no Doutor Barros acima

citado outros dous Padroens , hum , que exiftia no Codecoíb do Arco , era dedicado a Trajano , e refe- ria , que dalli a Chaves eraó dez legoas e mea j outro algum tantodiftante do Codec^ofo, era |)ofto por or- dem do Emperador Hadriano , e declarava , que dalli a Chaves eraó dez legoas e tres quartos.

Outro em Cíindes. 94^ Também no lugar dí)s Curraes , que fica a

diante de Lamado Carvalho , exifte hum Padraó íem letras , que ferve de hafte a huma Cruz 5 e dizem efta- va outro , de que fe naó fabe , os quaes fóraó alli trazi- dos de huma terra chamada dos Padroens , que fica junto á eftrada.

Ofitro na CrH\ ãe Lei- ç^z Oucro Padraó fem letras fe no fttio , a que chamaó a C uz de Leiranco, a qual Cruz eftá pofta fobre o tal Padraó , que tem doze palmos de alto , e nove de circumferencia , e dizem foy trazido alli de huma Vifla arruinada , chamada Mel.

Outro em S. Lourenço. Outro Pairaó fem letras exifte a diante de

Chaves no lugar de S. Lourenco ; e no lugar dos Pofla- cos algumas legoas a diante de Chaves , fe confcrva hum Padraó dedicado ao Emperador Macrino.

CAPÍ-

Livro III. Cap. XIIL 577

CAPITULO Xllí.

Das difpaãdades.j que ha para fe regular a Via militar , que ultimamente de alguma forte fe regula,

944 ^ ^^^^ ^'^^ Capitulo acima fe DifficniMei p^tra JL/ pode confiderar , que o re,^ular a ef-

trada Romana , cjue corria de Braga até Chaves , e dalli are Aílorga , he quafi impoííível , e acertar com os lugares por onde paíTava , porque os Padroens , que nos poderiaó dar alguma luz, caufaó mayor conhi- íaó , porque nos mefmos fitios , ou quafi nos meímos íicios achamos huns Padroens , contando as diftancias a refpeito de Braga , outroj a refpeito de Aquas Fla- vias , o que faz huma incrível perturbac^AÒ. Da mefma forte achamos Padroens em fitios diverlos , apontan- do as mefmas diftancias, o que parece fer impoííível.

945 Nefla perplexidade , coníultada> as peíToas ReguUfe. intelligentes das Provincias de Entre Douro e Minho ,

e Traz os Montes, íe dividirão em pareceres, e o llluf- triííímo Biípo de Uranopolis mandou à íua cuíla exa- minar a fobredita eítrada , e me mandou a rekc^aó , ° affaz exaóta-, e curiofa. Eu di»*ey o que me parece. Pri- meiramente entendo , que a foÍ3redita Via militar Ro- mana teve íuas mudan(^as no mefmo tempo dos Ro- manos, e que era em muita parce divería , a que fe praticava deíde o tempo de Auguílo Ccfar , da que fe praticou depois do Emperador Vefpafiano ; íundume Tom. II. em

5 7 S Memorias do Arcebifpado de ^raga.

^ 'em cjue todos os Padroens , que exiftem dos Empera-

dores antes de Vefpaíiano , contaó as diílancias come- çando de Braga , e tomando a Braga por principio da ellrada ; ao contrario todos os Padroens , que exiftem do Emperador Vefpaíiano em diante , contaó as dif- tancias de Chaves para Braga , e tomaó a primeira por principio ; o que a meu ver foy , porque no tem- po de Vefpaíiano fe povoou , ou ennobreceo Cha- ves , e deviaó entaó mudar a eftrada antiga , que de Braga hia naquellas viíinhanc^as para Aítorga , é a lan- . caraó j)or Chaves de modo , que ficou a dita eítrada cortando em algumas partes ao menos por diverfas paragens, do que atélli , e dahi procede a diveríída- de do principiar as diílancias , e também a de naó con virem algumas , ao que fe poderá acere fcentar , eftarem os números em aleuns Padroens errados , e também a eílarem deflocados do íeu lugar primitivo : confirmaóíè eílas conju(5luras com vermos , que no Padrão celebre , que hoje exiíle na Ponte de Chaves , fegundo diííemos quando tratamos de Aquas Flavias , vem nomeados os mefmos Legados , e Pretores que no tempo de Vefpafinno tiveraó a incumbência de edificar a Via militar do Geres. Comhitiafe a rp^-w/árv ç^a 6 Deixando pois a eílrada antiquiífima;,parece, fobreditaFiamiitar, ^^^^ ^ ^^^^^^ ^^^^p^ Vefpafiarto em diante fe

deve re^rular na forma feíruinue. Sahia a eíl:rada de B.acra.e continuava até o lugar.aquechamsóde Are» as , daili paíTava ao Carvalho , onde contaõ huma le- goa , e profeguia ao Pinheiro , onde Fazem duas , de- pois aos Pardieiros^onde ccncaó trez na mefma forma ,

que

Lhrô III, Qp. XIIL 57^

que hoje corre a eftrada de Bra^a a Chavez. Do Pi- nheiro hia íahif à Cruz de Real , e começando affaf- taríè para o Sul da eftraáa , que aétualmence le pratica, paflava perto de Salainonde, oii Sella que parece íer a Salacia , que Antonino diz ficava á cinco legons de Braga. Provafe em tmk^t papfe efle diícurío evidente- mente , porque o Doutor Joaõ de Barros nas fiia An- tiguidades de Entre Douro e Minho , diz, que o Arce- bifpo D. Diogo de Soufa trouxera da ertrada , que vay Braga para Chaves , hum Padraó Romano , que di- zia ferem dalli a Braga crez quartos de legoa , final de que a eftrada a(5tual , e nos íeus princípios he a mefina que a Romana.

947 Provafe também, ou ao menos íe perfuade a defcripçaó acima , porque he cerro, que a Via militar Romana de Braga a Chaves preciíamente fe havia de fazer naquelle rumo , que leva a eflrada aíflual , e da poííçaõ , e curlo delia fe , que a eftrada Romana por alli diícorria, e a diftancia , que achamos entre Sa- lamonde , e Sella de Braga , que he de cincò legoas , moftra fer a primeira eftancia , ou parada das milicias, que íahiaó de Braga, a que Antonino chama Salacia , e colloca na mefma dillancia.

948 Efte difcurfo tem contra íi dous Padroens , Objecçaô. de que no capitulo antecedente fizemos mençaó , o

que exifte a diante do lugar das Boticas, e perto do de Campos , dedicado ao Emperador Cláudio ; e o outro, que eílà em Villarinho dos Padroens, dedicado ao Em- perador Tibério , os quaes dizem , que dalli a Braga íaó cinco legoas , e fícaó os íítios em que eRaó muito

QJi diílantes

580 Adcmorlas do Arcehifpado de ^raga,

diílantes de Sella , e Sakmonde. Rcpofia, 949 Ao que, porém, rerpondemos, que o Padrão

dedicado a Claud io^confta naõ fer aquelle o feu lugar primitivo, e aíTím tem pouca for^a o que fe deduz da diílancia., que aííina contra nos ; nem he poííivel, que alii eíliveíTe Salacia , nem os Romanos contaflem cin- co legoas fómente, porque he muito mayor a diftancia dalli a Braga;o mefmo refpondo ao outro Padraó dedi- cado a Tibério; pelo que entendo tem as letras nume- raes gaílas com o tempo. Se bem naõ duvido , qiie eíles Padroens eftiveílem na eftrada antiquiflima , e primitiva do tempo de Augufto, e Tibério, e que efta cortaííe por alguma parte mais difíicultoía, porém mais breve.

Cwútiadfe areffuUra 95° C)^ Salamonde profeguia a Via militar Ro- Jobredita ria militar. Yumz ao íitio chamado Confurco , e dahi por fora de Efpindo hia ao lugar de Zebral, diftante de Sella , ou Salamonde duas legoas pouco mais , ou menos , e do Zebral hia a Buftello , e dahi a Boticas de Ruyvaes , Santa Lebcadia , e Ponte do Arco , onde a eftrada Romana fe cruza com a a6lual,ficando eíla para a par- te do Sul , e a Romana para a banda do Norte , e cor- ria por Villarinho dos Padroens atê o Codecofo do Arco, e Caftro do Codecofo , onde contaó leis legoas e mea de Salamonde, e vinha a fazer feis legoas, fegun- do o^ lugares por onde temos dito paiTava , e por aqui pouco maiSjOU menos eni:endemos ficava o lugar,aque chamavaó (Príe//í//«wz,que Antonino poem a feis legoas c mea de Salacia , e onze de Braea. rrova. 55 1 Piovafe^ou fe perfuade efta dercr!p<^a6 ptlos

Padroens,

Lhro IIL Cap. XIll. 581

Padroens, que ex ftem no lugar do Zebral , e Villa- rinho dos Padroens , que lhe fica perto , porque à vifta de alli fe confervarem tantos Padroens Romanos , he íinal que por alli corria a eftrada ; e podo que muitos raó aponraõ as diiUncias , e o dedicado ao Emperador Tibério defdiga muito, e declare , que dalli a Braga íâó cinco le^oas , defte fe , que ou eftá errado, ou foy alli conduzido de outra parte ; dos outros bem fe mol-lra , que a Via militar corria por alli , ou perto. Demais, que o Padraó de Villarinho, qie denota a diftancia de dez legoas e mea , íe conforma muito com o Itinerário de Antonino , ou denote a diftancia de Braga àquelle lugar , ou a de Aquas Flavias , por- que o Itinerário íitua Prefidio , ifto he o Codec^oíò, fegundo dizemos , a menos de mea legoa , do qual eftá Villarinho , a cnze legoas e mea de Braga , e a onze de Chaves , que vem quaíi a concordar com as diftancias , que vamos aíTinando nefta eftrada. E ifto fe confirma com dous Padroens , que refere o Doutor Barros acima citado,exiftia6 ( hoje nnó fey fe exiftem, Barmmmusiudopág, ou fe faó os queeftaó em Villarinho ) noCodeçofo, dos quaes hum dedicado a Trajano , dizia, que dalli a Chaves e ao dez legoas e mea, e outro dedicado a Hadriano , que elle diz eftava algum tanto diftante do Codeçofo , dizia que dalli a